
Há alguns meses, a propósito do affaire Robles (não sei se estais recordados …) aqui deixei um elogio do uísque que me cabe em sorte nesta fase da vida, o Queen Margot, o uísque do Lidl, aí vendido a meros 7 euros a garrafa, aqui a 11. Recebo agora mesmo uma mensagem de um amigo, a avisar-me que a marca acaba de ganhar um belo prémio no World Whisky Awards, certame uísqueiro em Nova Iorque – não, não foi escolhido o “melhor do mundo”, mas foi seleccionado para a ronda seguinte, batendo no seu segmento (baratucho, popular) os mui afamados Cutty Sark, Grant’s, JB, Johnnie Walker, etc. – que normalmente custam o dobro.
Fico deliciado com a notícia. Rejubilo mesmo, ainda que sejam, objectivamente, más notícias: estou certo que com esta publicidade o Lidl vai meter um euro ou euro e meio a mais por garrafa. Não já, já. Mas daqui a uns tempos. Pelo sim, pelo não, amanhã lá estarei a abastecer-me, em registo de açambarcamento.
Moral da história? Não vale a pena ser Robles …
Em nota de rodapé: informo os prezados leitores que o Clan’s Special, o equivalente uísque da casa da cadeia Delhaize é muito mauzito, não justifica.

Oh! E eu a pensar que era um licor aromático e delicodoce e sai-me um – intervalo para ir ver a grafia – uísque. Bolas. Digo mesmo que ora bolas, é que estava a simpatizar com a garrafa. Não sei se não vá comprar mau grado não me ser bebida apetecível. Mas pronto, a embalagem convence.
pois, lamento, mas isso de licores aromáticos, desculpar-me-á a franqueza, mas eu sou vetusto, ruína fossilizada dos tempos heteropatriarcais, como agora agora sói dizer-se, e como tal, dizia eu, licores aromáticos é coisa que não se me aproxima
Cara Bea, vou assumir que é mulher (Beatriz, talvez?).
À luz (…) das mais modernas teorias sociais, a sua preferência por bebidas aromáticas e delicodoces cai num estereótipo feminino inaceitável. Se não fosse o Delito um lugar relativamente sossegado já estaria a levar com paus e pedras. Chegámos a isto e tão depressa não saímos daqui.
O uísque é muito aromático. Não será delicodoce, mas a ressaca é melhor do que a dos licores ; )
Tem razão António, a comentadora (?) – aliás deveríamos escrever @ comentador@ para estarmos moralmente correctos – Bea veio aqui reproduzir os esquemas da dominação hetero-patriarcal que tanto oprimem as consumidoras de bebidas espirituosas
António
não entendo a razão de um estereótipo ser inaceitável; a razão de o ser é muita mulher pertencer ao grupo. Penso eu. Acontece que sou uma dessas. e depois? Não será razão para apedrejamento.
Mas o meu interesse licoroso é muito rasteiro, não daria para haver ressaca. Bebo-os pouca vez e com tanta moderação que sou gozada em família. Em matéria vinícola sou desgraçada abstémia de quase todos e os meus preferidos são brancos e gasosos. De preferência com sabor a outra coisa. Vai ver é outro estereótipo.
Beatriz está bem para mim, sim. E continuação de bom domingo.
Cara Bea, actualmente a lista do que é inaceitável é longa e cresce dia-a-dia. Talvez já se tenha ultrapassado o limite que separa a democracia da ditadura. O “Lolita” esteve proíbido porque era lascivo, qualquer dia volta a sê-lo por ser pedófilo. O 1984 tem ciclos, mas esteve simultaneamente proibido por regimes fascistas e comunistas. Qualquer dia é banido de cá, nem que seja porque aquela parte do comício em que é anunciado o aumento da ração de chocolate de 400 gramas para 300 é demasiadamente parecida com o virar da página da austeridade.
As mulheres terem a ousadia de pensar por si, terem a ousadia de gostar de cor-de-rosa, ou licores, bonecas, ou seja lá o que fôr que fuja aos rígidos parâmetros sabiamente definidos por essa grande mulher que é Francisco Louçã? Cuidado.
Olhe que estive a debater uma idéia curiosa apresentada num blogue – que o ressurgimento dos Queen e Abba via Hollywood é o lado negro da democracia, a frivolidade, o nivelar por baixo. Nas entrelinhas fica a idéia de que deveriam ser banidos para dar lugar a Bob Dylan, Leonard Cohen, e outros. São populares, mas, lá está, o povo não percebe nada. Ensine-se o povo. Pois, mas banir é mais rápido. Depois logo se ensina. Houve tempo em que acharia a idéia simplesmente parva, mas agora acho-a sinistra. A história está cheia de exemplos de iluminados que acharam que devia ser tudo como o molde que tinham na cabeça, e os resultados foram invariávelmente horrendos. O políticamente correcto é demasiadamente parecido para me deixar descanso quanto ao que sucederá à liberdade individual. Veja o caso da senhora que recentemente expôs as suas idéias sobre a mulher, o matrimónio e a família – tornou-se um caso nacional. Foi trucidada pelos autoproclamados defensores das liberdades…porque exerceu o seu direito a pensar. Irónico não é?
De tudo o que escreveu e que só agora li, se me permite, saliento o facto de o povo por vezes – não é universal – precisar ser educado,sim. Mas quando digo povo, não me refiro apenas à classe do cada vez maior número e mais empobrecida, mas ao povo português em bloco. Porque se uns pensam pior por ignorância e ausência de condição para pensar diferente, outros há que o fazem por sobranceria e outros defeitos que grassam a par da ambição.
Não desgosto de Francisco Louçã e não sei por que razão lhe chama mulher. Também não faço ideia de quem é a senhora que refere e provavelmente escandalizou meio Portugal, mas sou capaz de admitir que por exemplo Joana Amaral seja pessoa de tal quilate. Por outro lado, julgo que a liberdade de expressão é apenas uma das nuances da liberdade individual cuja é sempre menor do que julgamos.E que, sendo um direito, a liberdade segue parâmetros sociais e morais, de grupo e individuais que a limitam.
Mas, sobretudo, a educação do gosto ou do que for não é imposição, ensina-se a ver mas cada um olha onde quer e pode. A democracia vive da diversidade.
Cara Bea, a essência do que escrevi é sobre a diferença entre ser educado ou doutrinado. A Educação liberta, a Doutrina prende.
A senhora chama-se Joana Bento Rodrigues, escreveu um artigo no Observador sobre o que ela crê ser o papel da mulher, a família, o matrimónio. A senhora é médica, não é ministra ou secretária de estado, ou seja, as opiniões dela não têm poder coercivo sobre ninguém. Concorde-se ou não, as reacções foram muitas e muito violentas. Básicamente insultos. Não havia necessidade. Mas actualmente há dogmas e gente que crê que fora deles as opiniões deviam ser silenciadas. Dogmas contra dogmas. Ora eu não gosto de dogmas.
Você gosta de licores delicodoces. Alguém poderá dizer que é mesmo coisa de mulher. Alguém poderá dizer que não pode gostar de licores delicodoces. Alguém poderá dizer que o seu gosto é reaccionário e perigoso e perpetua um certo estereótipo de mulher. E eu acho que você tem todo o direito de gostar do que gosta e não ser atacada por isso – óbviamente desde que não defenda atrocidades. No caso dessa senhora as maiores atrocidades vieram nas reacções. Mas leia, e tire as suas conclusões. A minha conclusão foi a de que as mulheres não ganham nada em trocar umas grilhetas por outras. Continuarão presas aos dogmas em voga, como sempre.
Eu contrapunha muita coisa a essa senhora que, sem ofensa, está desenquadrada do seu tempo e confunde os juízos apesar de transcritos em português correcto. Mas ofender…que vantagem traz para além do escândalo e mau estar que deixa no ofendido e da nódoa que fica em quem ofende. A ofensa não constrói. Posto isto, sempre lhe digo que hoje – não pensei sempre assim – julgo que todas as mulheres são, à partida e até sem o saberem, feministas. Todas as que lutam por si e pelos seus. Isso mesmo, por maridos, filhos, pais, irmãos e outra gente que haja. Porque vivemos uns com os outros e as relações não são um passatempo, são necessárias, dão estabilidade e segurança. Suponho que não seja uma luta solitária o que desejam, mas compartilhada em paridade com esses companheiros que possam existir, filhos, pais e etc. Infelizmente ainda existe o mito e a realidade da mulher que segura todas as pontas para que o resto da família tenha os seus hobies, tempos livres, dinheiros fáceis, cultive as suas amizades. Espero nos casais jovens e de mentalidade mais aberta. Desejo que se entendam como iguais em direitos e deveres e, salvaguardando especificidades de género e até individuais, os homens abandonem a subalternidade conveniente de serem ajuda nas tarefas caseiras.
Quanto à senhora em causa, precisava de uma lição sobre feminismo. Apresenta uma imagem estereotipada das feministas opondo-lhe o que pertence à mulher em geral: doçura, certo talento congregante, um gosto em ter casa que acolha e receba. Portanto, a clivagem é sua, na realidade não existe. Além do que, essas características gerais femininas não têm que se repetir em cada mulher. Podem estar ou não. E digo o mesmo para matrimónio e filhos. Se bem que a maioria os deseje e eu mesma reconheça que quem os não tem perde uma dimensão importante, o feminismo não põe nem tira em tais aspectos. O bem de uns não é necessariamente o bem de outros.
Não gosto de mulheres que são bengala voluntária. Luto por todas as que conheço e o são a contragosto, que a vida é madrasta. Não existo para ajudar um companheiro a crescer, mas se gostar dele é esse o meu desejo e tudo farei para isso. Sem me anular. Porque sou mulher.
Portanto leu. E você contrapunha muita coisa a essa senhora, e eu contrapunha muita coisa a essa senhora. O que eu não faria era tentar silenciá-la e insultá-la – a acredite que não se pouparam. Se é assim que ela quer viver, o problema é dela, é a vida dela. Se ela estivesse numa posição de poder impôr a sua visão através de leis, violência, perseguições, denúncias, aí sim, era um problema geral.
Dá-me mais que pensar a desproporção das reacções. Um pouco como o episódio Mário Machado / Luís Goucha. Terão as “elites” assim tanto receio de que idéias dessas convençam hordas de gente? Julgarão que somos todos assim tão parvos? É que considerarem essas pessoas um perigo parece-me o equivalente a passar ao povo um valente atestado de estupidez. E isso incomoda-me mais do que o que a senhora escreveu.
estou incapaz de argumentar. Mas amanhã já respondo, ok?
Supondo que cada um pode, se lhe for dada oportunidade, opinar, oralmente ou por via escrita, sobre qualquer assunto, a senhora em causa exerceu o seu direito. Mas, em democracia, o direito opinativo tem a sua contrapartida que é a crítica. E julgo que, vivendo no século XXI, e dado o tema e a forma como o tratou, ela o sabia e a esperava. O busílis é a má educação das pessoas. Porque uma coisa é criticar e outra alardear alarvidades e retirar conclusões que não são necessárias e podem não ser verídicas. As opiniões falsas combatem-se com provas factuais e argumentos com encadeamento lógico e de sentido. Por outro lado, António, não entendo os seus pruridos, oiço dizer que o mundo digital anda cheio desses disparates. Não li o que dizem os comentários relativos ao artigo, mas não serão piores do que tantos outros de que oiço falar e me recuso a ler. A má língua anda solta e sem cabresto quando tudo é feito à distância e não há um rosto a corresponder às palavras. Somos cobardes sem que queiramos aceitá-lo.
E, no entanto, não concordo quando diz que é só a opinião de uma pessoa e não tem importância. Não é tal. Se foi palavra de jornal, foi lida por muita gente. E pode influenciar, sim. Talvez as reacções tenham sido exacerbadas, mas sou 100% a favor da sua explanação. Espero que nenhuma das mulheres que a leu concorde com o dito. Porque, infelizmente, ainda há muito quem se agarre a essas tábuas podres para perpetuar a supremacia masculina. O povo não é estúpido, mas é ignorante. E a ignorância é um estado perigoso.
Francamente não percebi o que levou o jornal a publicar o artigo, até porque dois dias depois o mesmo jornal achou necessário descartar-se da coisa num editorial, face às reacções.
É que se a senhora é uma ilustre desconhecida, quem reagiu não é. Desde artigos em jornais e blogues até declarações políticas, passando pelos inevitáveis tudólogos da tv, caíu tudo em cima da mulher. Não foram anónimos. Fascista, salazarenta, misógina, machista de saias, nazi, e por aí. Nem foi crítica, foi um massacre. Foi um grau de intolerância igual ao doutros tempos. O que me deixou triste foi que nada mudou – dantes não se podiam dizer certas coisas e era errado, agora também não se podem dizer certas coisas e está igualmente errado.
O povo é ignorante. E quem tem feito por mantê-lo assim? O povo vai à escola. O povo tira cursos superiores. Porque razão, depois de anos e anos, saem do ensino sem saberem falar, escrever, fazer contas, e pensarem pelas suas cabeças?
Cara Bea, gostei muito desta conversa perdida aqui onde já tem de se fazer muito scroll. E agora, que já ninguém vem xeretar por aqui deixo-lhe um apontamento pessoal.
Fui criado pela minha mãe e pela minha avó. Da miudagem com quem brinquei calhou que para aí 3/4 fossem meninas. Calha-me agora ser pai solteiro duma adolescente. Talvez por ter conhecido mulheres independentes, capazes, e sem disposição para aturarem merdas de ninguém, por vezes não entendo as que se deixam sujeitar a certos homens. Quando a minha filha nasceu, houve quem me perguntasse se não preferia um filho, e a minha resposta foi sempre que não – as mulheres são mais fortes. Não sou um feminista, e acho que não é a pisarmo-nos uns aos outros que chegaremos a algum lado, e isso faz com que certos homens e mulheres me irritem profundamente. Principalmente os paternalistas. As mulheres não precisam disso, apenas de respeito. Acho que a minha mãe resumiu muito bem quando lhe perguntei se era verdade que nunca se devia bater numa menina – que não, filho, mas também não te deixes bater por elas.
Obrigado por esta conversa, e espero que haja mais.
sim, pode que conversemos, foi um prazer. Mas, o que ensinei aos meus filhos foi que a violência não é forma de os humanos se relacionarem entre si, ensinei-os a respeitar os outros, os animais e o mundo. Outra coisa que lhes disse foi que nunca começassem uma briga mas, se acaso alguém carregasse sobre eles, respondessem. E uma terceira, é muito feio lutar contra alguém que sabemos antecipadamente que é mais fraco. Se aprenderam não sei. Mas tenho esperança porque eles são a minha obra, não tenho outra.
Bom fim de semana
Sempre bem informado. 🙂
Quem tem amigos tem tudo …
Há cerca de um ano deixei beber whiskey, não posso falar por este caso em concreto, mas experimentei a cerveja do lidl “patronus” e achei uma pechincha bem como os amigos que experimentaram. Vinhos e outros produtos tb, a qualidade é muito boa.
Então se retirasse-mos o iva e os impostos sobre o álcool era uma verdadeira pechincha, prontos o iva para uma valor de há 10/15 anos atrás.
A cerveja do Lidl que bebo aí é uma “tagus”, acho que é nome. Gelada é perfeitamente compatível com os preços da Super Bock (por razões da sua falta de respeito para com Rui Patrício não bebo nem compro Sagres há vários anos). E bem melhor do que Cergais ou outras cervejas de preço barato. É uma pechincha, como bem define.
Aliás, com estas práticas comerciais de tornar acessível de álcool decente a preços baratos os armazéns Lidl devem ser respeitados, referidos e até elogiados pela sua política empresarial de responsabilidade social. É preciso estar mesmo muito falido para não se ter acesso às doses necessárias.
acho que a cerveja se chama “argus” Gelada escorre
O IVA não deve descer, pelo contrário, nesses produtos deve estar a subir não tarda muito. Como disse o Sr. António Costa logo no início da governança, quando subiu os impostos todos na inauguração do Fim Da Austeridade, “Os Portugueses terão de fazer escolhas”. A silhueta cada vez mais rotunda da personagem parece indicar que ele, pessoalmente, não.
Eu segui o ditame do nº 2 de José Sócrates, fiz a minha escolha e propagandeei-a, este uísque do Lidl, o Queen Margot. Espero que no Largo do Rato aprovem esta minha opção