A ministra da Saúde e os criminosos


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(Entrevista ao Diário de Notícias: transcrição e excertos em filme. Para quem tenha dúvidas ou queira aludir a uma hipotética descontextualização, este trecho em rodapé aparece no oitavo filme apresentado)

 

Quem me está próximo preocupa-se por eu falar sozinho, aparente sinal de senilidade, óbvio marcador de maluquice. “Não te preocupes”, vou adiantando, “sempre falei”, o que não sei se sossegará alguém. Não sabe, passará agora a saber, se isto ler, que muitas vezes, não sempre mas muitas vezes, nisso falo com o meu pai. Ontem à noite conversei com ele sobre isto, esta ministra da Saúde PS que considera os sindicalistas renitentes como “criminosos, infractores”. “Pai, viste esta tipa, então o Partido apoia isto?” e ele, que foi comunista até à morte, daqueles cunhalistas “sem qualquer culto de personalidade”, a menear a cabeça, com ar até amargurado, e eu sarcástico “isto já parece lá a vossa União Soviética, para estes gajos um dia destes nem haverá direito à greve“, e ele a repreender-me “deixa-te de coisas“. E eu, qual adolescente implacável, “eu deixo, mas vocês é que são a geringonça, a esquerda, a apoiarem esta tipa“. Ele escorropichou o seu, sempre frugalíssimo, cálice de genebra (ou seria rum?), levantou-se e praguejou, à sua maneira, “patifes!“. E culminou “isto tem que acabar” antes do seu “boa noite, vou-me deitar“. Eu sorri, servi-me com abundância do rum (ou seria genebra?) e fiquei até a desoras a ver o “trio de ataque”, o Oliveira, o Gobern e um rapaz de melena arisca que “representa” o Sporting. Pois antes estes que tal ministra geringôncica. Depois, antes de me deitar, ao espelho lavando os dentes, surpreendi-me a falar sozinho, “criminosos? infractores? os sindicalistas? … estes gajos perderam completamente a noção”. Nisso a minha mãe assomou ao corredor, preocupada, “Zé vai-te deitar, já é tardíssimo e estás para aí a falar sozinho“, e eu que “tá bem, mãe, já estou a ir“, e ela sorri-me “vai, que já bem me basta o teu pai que não me deixa dormir, ali a falar mal do governo“.

 

 

62 comentários em “A ministra da Saúde e os criminosos”

          1. Sendo ministra não faz mal nenhum.
            Se fosse procuradora do Ministério Público é que seria muito perigoso.

  1. Penso que o PCP, e os comunistas em geral, nunca tiveram pejo em dizer mal, mesmo muito mal por vezes, de alguns sindicalistas. Em especial, mas não somente, dos sindicalistas de tendência anarquista. O PCP, e os comunistas em geral, só gostam dos sindicalistas que são controlados pelo Partido. Dos outros não gostam, em alguns casos abominam-nos, em casos extremos abatem-nos.

    1. Lavoura, V. tem tendëncia para encontrar mácula (mera generalização excessiva que seja) nos postais. Neste caso, felizmente, fá-lo com todo o acerto. Mas em defesa do postalito deixo duas coisas: um menor, a de que não conheço nas décadas recentes tendência anarco-sindicalista relevante no país (friso, apenas digo que não conheço); e uma maior, V. acha mesmo que qualquer pessoa com um mínimo de ligação, ideológica, profissional, sentimental que seja, ao mundo sindicalista, como qualquer comunista tem, papa uma declaração destas no quadro de referências a que V. alude ou interpreta isto com o valor que tem, a de uma ministra que criminaliza moralmente os sindicatos que não querem negociar nos termos que ela deseja? A senhora até pode ter toda a razão quanto às negociações, os sindicalistas em causa até podem ser piores do que aquele professor eterno, mas, caramba, isto não será demais para ser afirmado? E demais para não ser protestado pelo camarada de Sousa?

      1. Lavoura, V. tem tendëncia para encontrar mácula (mera generalização excessiva que seja) nos postais.

        O JPT há de me desculpar, você é antropólogo mas eu sou um praticante de ciências (muito) exatas, e por isso, por deformação profissional, sou muito picuinhas, analiso tudo de forma muito exata e não tolero qualquer imperfeição ou inconsistência.

        não conheço nas décadas recentes tendência anarco-sindicalista relevante no país

        Talvez não haja tal tendência de forma estruturada, mas haja ainda assim sindicatos que se comportam com o radicalismo e com a falta de aceitação do compromisso com que os sindicatos anarquistas se comportavam.

        isto não será demais para ser afirmado?

        Para si talvez seja, para um comunista puro e duro como o camarada de Sousa não é de mais, não senhor. Para os bons comunistas os anarquistas são piores que os lacraus, abatê-los a metralhadora ou de outra forma qualquer é fair game. Já ouviu falar de Barcelona, maio de 1937? Se não ouviu vá ler, May Days na internet

        1. A gente sabe que os camaradas de rija têmpera tudo suportam em prol do amanhã canoro. Mas ainda assim a guerra civil espanhola não é o mote arregimentador mais atraente para os dias de hoje, e fico estupefacto com o “silêncio inocente” do camarada de Sousa diante desta tirada da não-camarada ministra

          1. Generalizando, o PCP nunca foi lesto nos protestos de oratória. Não ter surgido não significa não existir. 2019 traz 2 eleições, jpt. O PS bem pode tentar cativar o PSD e o BE que ao PC só o apanha descativando. Isto é uma amostra, quer-me parecer…

          2. Isto não é uma amostra de estratégia (ou mera táctica) política. É uma tonta a falar. Mesmo. E só isso. Depois alguém virá dizer da sua competência técnica, que é possível que exista. O que só piora a coisa, tipo torna-a uma tontona, a falar.

          3. Como disse num comentário a um postal do Pedro Correia, não sei onde estará o fio condutor destes ministros – mesmo em relação ao seu próprio ministério. Quando digo ser uma amostra, é dessa ausência de políticas vagamente discutidas em comum. Ou com os próprios botões, vá…

        2. Caramba, Lavoura! Sou das que menos o critica, mas caramba! Não tolera qualquer imperfeição ou inconsistência?! E não será uma absoluta inconsistência afirmar que o PC de hoje é igual ao de há 80 anos? E não será imperfeição o Luís Lavoura falar em nome de Jerónimo de Sousa? A última vez que os li, nem o LL era PC nem o JS era adepto de porte de armas.

          1. o PC de hoje é igual ao de há 80 anos

            Igual, igual, não é, claro, mas os velhos ensinamentos de Lenine e Estaline permanecem lá. Em particular, os comunistas sempre foram muito mais inimigos de quem é de esquerda do que de quem é de direita. Os comunistas sempre foram muito piores para os socialistas e para os anarquistas do que para a direita. Para os comunistas é crucial dominarem, de facto terem um monopólio, do movimento operário, dos sindicatos e das greves. Não podem permitir que socialistas ou anarquistas se intrometam no movimento operário e sindical.

            Uma greve que não é controlada por um sindicato afeto ao PC, como – aparentemente – é a atual greve dos enfermeiros, é para o PC uma coisa péssima.

            o Luís Lavoura falar em nome de Jerónimo de Sousa

            Eu não falo em nome dele, apenas procuro elucidar aquilo que penso ser o ponto de vista dele.

            (Já agora, Jerónimo de Sousa também nunca fala em seu próprio nome, ele fala sempre em nome do “coletivo” do PCP. Um bom comunista procura sempre falar em nome do “coletivo” e nunca dar uma opinião própria, pessoal.)

          2. Não misture Lenine e Estaline, LL.

            E sim, os comunistas deram cabo do canastro aos anarco-sindicalistas nos anos 30, nem se juntaram contra a malta da PVDE nem nada… e lembro-me perfeitamente, pese embora ser menos velha ou mais jovem ou algo assim do que o que o LL julgava, de Álvaro Cunhal ter apelado ao voto em Freitas do Amaral só para evitar que o Soares subisse a Belém… e, pronto, já que elucida Jerónimo, aproveito para lhe perguntar porque é que não aceitou antes um pactozinho com a PaF em vez de viabilizar os seus figadais inimigos, e logo ambos os dois!

            Seriamente, Luís, um partido com quase 100 anos claro que terá a matriz e a estrutura muito mais vincada do que os segundo ou terceiro, que têm menos de metade da idade. Mas sofreu alterações profundas e, apesar do discurso, o PC mudou – porque “os inimigos” mudaram, e o PCP adapta-se a estes.

          3. Ah, Sarin, Sarin, essa memória! A mim parece-me (tenho a certeza) que está a “baralhar” as personagens: o Barreirinhas apelou sim ao voto em Soares (mesmo tapando, se necessário, a sua foto no boletim) na segunda volta das eleições presidenciais entre Freitas e Soares. E com tal ajuda tivemos Soares por dez anos. Entre um e outro, nem o diabo saberia escolher, parece-me.

        3. sr. L. Lavoura,
          “…, para um comunista puro e duro como o camarada de Sousa não é de mais, não senhor. Para os bons comunistas os anarquistas são piores que os lacraus, abatê-los a metralhadora ou de outra forma qualquer é fair game. Já ouviu falar de Barcelona, maio de 1937? Se não ouviu vá ler,”

          Quero agradecer a sua informação acerca desta sua afirmação porque fiquei muito preocupado, com o seu conteúdo, e ainda continuo porque a acabo de ler !, mas vou tomar o máximo cuidado porque acho que corro perigo ! Isto porque já fui mordido por um lacrau, foi neste verão, em julho, parece que ainda sinto a dor, ou melhor um fortíssimo ardor na zona lombar, o bicho, quando eu desvastava uns arbustos e ervas altas, saltou duma folha e entrou-me nas costas, e zás, cravou-me, aguentei a muito custo – mas não fui ao hospital, aguentei, não fui por haver greve nesse dia, nem estava preocupado com SNS, olhe não me deu para ir, só resolvi perguntar a um técnico de saúde se tal picada dava morte imediata, ele disse-me que habitualmente não, mas para estar de sobreaviso e ao mínimo alerta ir às urgências. Assim fiz, a muito custo aguentei ardor forte durante cerca 2 horas.
          Ah! já me estou a alongar, então vou dizer, o que me preocupa agora é esta coisa, isto é… eu tenho um vizinho que me convida de vez em quando (as vezes ele quer) a beber um copito de vinho tinto, forte, mas saboroso, na sua adegazita. Só que que ele é comunista, ele afirma-o ! veja bem ! tem o espaço vínico profusamente decorado com foices e martelos, emblemas e estandartes do pc, bandeira vermelha, e imagine até uma caricatura do Cunhal, sobre o J. Sousa ainda não vi nada, é verdade. O amigo acha que posso vir a ser metralhado ? ou então pode-me meter um veneno pior que o do lacrau no vinho ? (o tinto é forte não se notará no sabor!), é que parece mal abandonar tal costume, além de me saber bem depois duma jorna de trabalho e ele pode levar a mal …sabe como é, as pessoas dizem

          1. desculpe-me mas só quero acrescentar é que eu digo que sou anarquista, clandestino, mas sou.

          2. Senhor anónimo, o camarada vizinho pode ser um gajo porreiro, e o convívio agradável. Mas isso não inibe a gente de vasculhar o passado dos seus ídolos e torcer o nariz ao que a rapaziada (a camaradagem) porreira ambiona e às perspectivas do que são quando se trata de algo mais “sério” (público) do que irmos à garagem lá de casa onde o amigo Silva montou um belo de um barzito

          3. jpt, ele não é Silva, e não é um barzito, é uma adega pequena onde ele faz o vinho! O sr. Lavoura ainda não me respondeu, saberá o senhor por sinal se este comuna me poderá metralhar ou me tratar como eu tratei o lacrau ( pisei-o, mas só porque me mordeu a valer, o cabrão ) por eu ter revelado que sou anarquista ? Vasculhar o passado dos ídolos, não irei fazer por receio, desde já, pode não gostar e depois ele tem muitos, parece que tem loucura pelo encarnado, veja bem também é do Benfica!
            Estou num trilema ser anarquista, o copo do vinho e poder vir a ser tratado como se fosse um lacrau…

          4. Ok, será o camarada Fernandes que tem uma pequena adega, espero que as aventuras enológicas sejam também gastronómicas … Quanto ao seu lamento pela indiferença com que foi recebido pelo comentador-residente Luís Lavoura nada posso fazer, as relações inter-comentadores ultrapassam o meu labor (num postal recente gerou-se uma polémica entre comentadores que não se gramam e acabo, agora mesmo, de “teorizar” sobre o assunto, em registo autobiográfico – se tiver paciência deixo a ligação, como forma de me desculpar por não o poder ajudar na captação do interesse de Luís Lavoura https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/pensamento-da-semana-10423332

            Quanto ao seu trilema tenho solução simples (mas talvez não muito barata): compre um tricórnio, verá que não pensará mais no triassunto

          5. Tricerto, obrigado pelo seu esclarecimento e pela, sugestão ! Como me diz que a solução provavelmente não será muito barata, vou ver se encontro um tricórnio usado numa casa de venda de sucata, quando for a Lisboa, porque por aqui, neste interior nacional não há casas de sucata de jeito, e, a minha relação com o dinheiro também não é farta, nem coisa que se pareça! Ainda se aceitassem no mercado uns sacos de batatas, abóboras…isto é, géneros alimentícios, talvez fosse mais fácil a possível compra.
            Fico-me por aqui. Mais uma vez obrigado.
            Vou ver se o “Fernandes” (o comuna d’um diabo) me dá mais uma prova enológica, antes dos agentes do sistema me metralharem.
            Tenha saúde e boas festas
            do
            Anarco empresário anónimo

  2. O seu pai teria argumentado perante este texto ou, desolado, manter-se-ia no terrível “patifes” – dedicado a este governo desgovernado mais do que ao “seu partido”, que o teve que viabilizar para impedir outros patifes?
    Talvez o seu pai, qualquer que fosse a reacção, sorrisse ainda assim perante este texto: velho comunista seria ele e não falaria tão entusiasmado contra os socialistas 🙂

    Nem apetece abordar o tema, tão boa a história contada.

  3. Ela (ministra) tem razão:

    Fez-me pena vê-la sentada na sala de espera das urgências do Hospital de S. José… há 6 (seis) horas..!
    Desistiu ..foi . para o Hospital de Gaia!

    Um drama que só visto…

    Am

  4. Alguns vão chamar-me reaccionário, ou coisas piores, mas começo a dar ouvidos aos que defendem que os funcionários públicos deveriam ser obrigados a renunciarem ao direito de fazer greve, porque, em princípio, as greves dos funcionários públicos atentam contra os direitos elementares e constitucionais dos outros cidadãos, como é o caso do direito à segurança, à justiça, à saúde ou à educação, que atingem sobretudo, e de uma maneira mais intensa, os direitos dos mais pobres. Por exemplo, não se entende que uma empresa pública de transportes cobre antecipadamente o preço dos títulos e, depois, não garanta o serviço contratado, obrigando os utentes a gastos desnecessários.
    E, quem assim pensa, aduz boas razões para que assim devia ser: os funcionários públicos têm emprego garantido para toda a vida, ganham, em média, muito mais do que os trabalhadores do sector privado, sem falar no privilégio do horário de trabalho mais reduzido que os e que devia acabar, a bem da justiça. O mesmo se diga da anunciada diferença no valor do salário mínimo.
    Além disso, também começo a pensar que não deviam ser legitimadas as greves cirúrgicas: não aos exames, não às reuniões de turma, não às cirurgias, não às horas extras. Ou se faz greve ou não, greve a alguns serviços não deveria ser possível.

    1. Bem, vou ler isso como um desabafo. O direito à greve é um dos fundamentais. Um tipo pode protestar contra o seu mau uso – alguém que pertence a sindicatos que marcam as greves sempre para as segundas e sextas desce um bocado na escala da evolução humana, por exemplo. Mas se o que diz é uma “boutade”, como quero crer, terá muito que se lhe diga. A disparidade entre funcionários públicos e trabalhadores do sector privado é enorme, por mais que os funcionários públicos (e os seus aliados de classe, os jornalistas/comunicadores, que têm a palavra pública, formatam opiniões, e não só muito dependem de financiamentos directos do Estado – avenças, publicidade nos seus empregadores, assessorias, subsídios (a la Ferro Rodrigues e ltd), etc – como estão imbrincados em relações de parentelas com o funcionalismo, e bastará olhar para a “pequena Lisboa” para se perceber isso), por mais que os funcionários públicos, dizia eu, clamem para elidir isso. O problema crucial é que o sector privado paga pouco e retira direitos, é certo. Mas de facto os benefícios dos funcionários publicos cavou um hiato sociológico face ao resto da população – que acaba por, literalmente, os financiar. Tanto no exercício corrente como na dívida que se acumula para o futuro. E sim, quando se diz isso logo nos dizem reaccionários. Se forem funcionários ou parentes.

  5. jpt, como em matéria familiar não se mete a colher, eu avanço para a greve. Estou em crer que esta greve está muito bem encaixada para desmoralizar o PS. O que eu entendo é que este país continua dominado por corporações que, usando as prerrogativas democráticas, cometem atropelos a dar com um pau. O funcionalismo público não foge a esta regra. E não foge na medida em que à classe política lhes falta classe para de uma vez por todas se desapegar destes atrelados e pensar mais no país.
    A mim pouco me importam as queixas dos enfermeiros e das enfermeiras, pois sabe-se que existe um número significativo de queixosos – com razão – nos leitos dos hospitais, e mais do triplo à espera para aí se deitarem e que necessitam ser tratados. São estas queixas que devem ser ouvidas.
    A saúde só é cara porque as corporações, públicas e privadas, são demasiado penosas ao erário público. E isto também se paga com a péssima saúde que o PS e seus acólitos, vulgo geringonços, vão oferecendo.

    Concluindo, estou em crer que devíamos chamar os médicos cubanos para tratar uma série de enfermidades com ozónio. Isto é barato e eficaz, e reduziria imenso o peso das constantes reivindicações salariais e industriais. E outra das coisas que devia ser introduzida era o tratamento dos doentes em casa, vistos por médicos e acompanhados por enfermeiros. Em particular a classe sénior.

    1. Sendo franco? Não tenho ideia formada sobre a situação do sistema nacional de saúde. E não faço a mínima ideia de que greves ou negociações está a ministra a falar. Li/ouvi um pouco da entrevista da ministra, e estou completamente de acordo com algo que ela avança – é uma verdadeira tropelia a ideia (e a prática?) que existe em Portugal que a iniciativa privada deve replicar uma rede de instalações de saúde e ser financiada pelo Estado. Uma coabitação entre saùude pùublica e privada é aceitável e será benéfica, agora que o privado viva do financiamento (ou do pagamento) estatal é o velho “espírito de iniciativa” português, “a gente avança e o Estado paga”. Para esse “espírito liberal” não me apanham a aplaudir, é igualzinho ao espírito das corporações do funcionalismo público. Só que brandido por tipos, investidores/grandes accionistas, que têm bem mais taco, os mariolas da pedinchice.

      Agora o que me espanta é este tipo de discurso, vindo de um governo de esquerda ainda mais. E também as formas de absorção pública destas declarações: como seria se o ministro Paulo Macedo, do XIX governo, tivesse dito uma coisa destas, o que estaria o jornal Público, e o DN, a dizer? O Avante e etc? Ou se fosse o ministro do Emprego, Álvaro Santos Pereira, quantos insultos ao “Álvaro” haveria, etc.?

      Mas há outra dimensão disto. A propósito de touradas e não só já aqui botei sobre a ministra da cultura – o que já me valeu remoques de homofobia. Ela continuou nos seus dislates – há dias referiu-se à agência Lusa, sobre a qual tem tutela, em termos que demonstram um total desconhecimento sobre a sua realidade, desconhecendo que tem accionistas (depois foi à festa da RTP e tornou a dizer asneiras incultas, sobre outra coisa qualquer). Isto não são gaffes, que todos cometemos. A questão com estas ministras é que tipo de actores políticos, qual a mundividência que têm e o que podem contribuir, é que este PM convoca para ministros neste momento do ciclo legislativo. Uma ministra que pensa sobre sindicalistas mais renitentes às suas propostas que são “criminosos” não tem cabimento num espaço político (negocial) nesta era da vida portuguesa. Eu até posso perceber um desabafo deste tipo vindo de um ministro já macerado por longos processos negociais e de contestação (a gente lembra-se de Lurdes Rodrigues face aos professores), com razão ou sem ela. É humano, um resmungo, qual um praguejar. Agora alguém que acaba de chegar ao governo? Numa legislatura que, face às condições económicas e às ligações entre as centrais sindicais e os partidos da coligação governamental (não me estou a enganar) , tem sido de relativa calma? Dá mesmo a sensação, com estas duas senhoras que acabaram de chegar a ministras, e depois de tristes figuras como a Tancinha e o tipo de Tancos, que o PS de Costa não tem segundas linhas que possam chegar ao poder

      1. ” ‘A gente avança e o Estado paga’. Para esse ’espírito liberal’ não me apanham a aplaudir, é igualzinho ao espírito das corporações do funcionalismo público. Só que brandido por tipos, investidores/grandes accionistas, que têm bem mais taco, os mariolas da pedinchice”.
        Houve tempos em que eu não pensava assim, mas, depois comecei a reparar que, no caso da saúde, os grandes accionistas/investidores procuram ganhar sempre: se os governos não “compram” eles mobilizam a opinião pública, os sindicatos, o diabo, e os governantes acabam por “comprar” – veja-se o caso dos (caríssimos) novos medicamentos, das vacinas, etc.. E também comecei a reparar que os médicos e os enfermeiros que trabalham nos hospitais públicos, onde aprenderam e aprendem, estão a amanharem-se, e muito bem, nos hospitais privados, onde exercem as mesmas funções em acumulação, eles que, assim como as suas famílias não sentem os inconvenientes das greves, uma vez que são beneficiários da ADSE. Para a acumulação nunca invocam o horário de 35 horas, pois trabalham outras tantas, se for preciso, no privado – e em tempo de greve dos enfermeiros (e dos médicos) é sempre preciso…
        Portanto, muitos médicos e muitos enfermeiros estão a lucrar demasiado com as greves, o que é inaceitável. E nós todos, os outros, só estamos a perder.

        1. Afinal tudo anda à volta do mesmo, de um Estado que não funciona e quando funciona, o faz mal ou de forma insuficiente. Tudo isto acontece, ninguém é responsabilizado e os postos de trabalho são sagrados. Por fim há quem precise dos serviços e pague os do Estado pelas vias estabelecidas e pague os que utiliza no privado sob pena de sofrer as consequências da ausência dos mesmos.
          Claro que poderíamos ter melhores serviços a menores custos e pagar melhor a quem os desempenha. Afinal bastava que os serviços do Estado cumprissem a sua função e não seria necessário alienar recursos para os privados sendo os mesmos empregues onde deveriam ser: nos serviços do Estado.

          1. há uma desresponsabilização que percorre as instituiçóes estatais que não existe no sector privado, negar isso é pura falsificação. A monumental patetice de Tancos – da qual o PM, que evidentemente sabia da escandalosa tramóia, saiu todo airoso – é uma ilustração do grau a que isso chegou

        2. Como disse acima,e palavra de honra que não estou a virar o bico ao prego, eu não sei sobre o SNS mais do que me permita … ouvir, sobre a situação dos médicos pouco sei. E dos enfermeiros pouco mais. Mas apanhei alguns jovens emigrantes aqui pelo estrangeiro (acho que até bloguei sobre isso) e pude entender que as condições de trabalho aí são péssimas e as contratações dificilimas. Quanto aos médicos? Tenho familiares muitissimo proximos que acumulam, por cidadania – pois no privado ganham muito mais e não precisam de qualquer remuneração estatutária advinda do serviço público, são super-conceituados. (E são eleitores conservadores, já agora: e todos confluem, na grande necessidade de proteger o SNS, de nele investir, na desistência estatal, transversal aos partidos do poder); Nisto tudo talvez haja mais do que contestar as corporações envolvidas, mesmo que sejam criticáveis, tanto nas reclamações como nas formas de luta

        1. Obrigado pelo filme Bem, cá em casa há o malvado aquecimento central, sem lareira Mas feliz natal para todos, e um bom ano novo para os comentadores (não anónimos)

  6. E o sabidola do ministro da administração interna já chutou para canto. A culpa do acidente de Valongo é do porteiro e o porteiro está proibido de falar, assim do tipo funcionários da CP. Caladinhos, se não fodem-se.

  7. Greve – recusar trabalhar ABDICANDO do salário, cumprir serviços MÍNIMOS, protestar contra ATAQUES aos direitos laborais, reivindicar melhorias contratuais justas.

    “greve” dos enfermeiros – recusam trabalhar enquanto alguém os FINANCIA para tal, ameaçam deixar MORRER doentes, protestam exatamente quando governo lhes repôs vários DIREITOS (salário que tinha sido cortado, 35 horas, mais contratações), e reivindicam nalguns casos mais salário do que os MÉDICOS.

    Eu nem gosto desta Ministra (pela forma como chegou ao cargo), mas está cheia de razão neste caso. Isto não são grevistas, são CRIMINOSOS.

    NOTA 1: gostei de ver uma ENFERMEIRA na TV, a dizer que colegas estavam a passar dos limites, pois ela percebe o outro lado: é doente em fila de espera no SNS, e sabe-sr lá quando será tratada…

    NOTA 2: não confundo a floresta, boa parte dos enfermeiros e sindicatos que não estão em greve, com a árvore podre, ou seja a bastonária DIRIGENTE do PSD, que se calou perante cortes feitos pelo seu partido, e agora se dedica, juntamente com um grupinho bem organizado em hospitais estratégicos, a tentar destruir o SNS, CONTRA o qual TODA a Direita votou em 1979, e o qual tem sido desmantelado, peça após peça, por PSD/CDS (e PS) desde os anos 90.

    NOTA 3: não é por acaso que estes CRIMINOSOS fazem esta “greve” na altura em que foi aunciada nova Lei de Bases do SNS, em que PS e BE se tentam entender para salvar a Saúde em Portugal, dando seguimento ao excelente trabalho de cooperação iniciado por J.Semedo (BE, médico) e A Arnaut (PS, o chamado Pai do SNS).

    CRIMINOSOS DO PSD/CDS, TENHAM VERGONHA!!!

    1. Acho giro a rapaziada da esquerda a invectivar os trabalhadores; É para variar, normalmente é ao contrário Agora quando há PS no governo os trabalhadores viram criminosos e traidores. E viva a Geringonça, olé, olá

  8. Os enfermeiros têm 6 sindicatos, uma associação sindical, uma ORDEM que também “decreta” greves e sabe-se lá que mais, enfim, hoje em dia temos sindicatos para todos os gostos, mas o que me parece é que nenhum quer negociar, apresentam as reivindicações e é assim e pronto! Se formos a analisar bem o que querem, é o mesmo que têm direito todos os funcionários públicos, desde os Juízes, até ao simples varredor, estão todos iguais, portanto se o governo pagar a uns TEM A OBRIGAÇÃO DE PAGAR A TODOS, É O MESMO PATRÃO!!!

    1. Bem, para além da simplificação quanto às exigências da função pública, há um ponto que refere, em tons que denotam o seu desagrado, que convém recordar. Um dos momentos fundamentais do estabelecimento da democracia foi a recusa da então chamada “unicidade sindical”, que os comunistas queriam, e que foi recusada – lembro um enorme comício transmitido na tv, onde Salgado Zenha, um dos líderes do PS defendia o pluralismo sindical contra a tentativa do PCP de inscrever na lei a sua hegemonia. Passaram 40 Anos, os ministros socialistas dizem a pluralidade sindical como algo de criminosa. Os socialistas, os apaniguados nos jornais e na academia? Calam-se

          1. nada disso. não incomoda nada. aquela referência à união soviética fez-me sorrir. um bocado mastigada, diga-se, mas ainda resulta para certas mentes. ele há público para todos os estilos.

          2. mastigada? Vera fóssil. Só estes se lembram que os camaradas sempre negaram o direito à greve. E que os fósseis camaradas continuam a picar-se com isso. Os mais novos nem tanto, só parvos mesmo

          3. Lido assim de repente, parece que o direito à greve foi cerceado em Portugal pelo governo da geringonça.
            Uma espécie de regresso aos tempos da outra senhora, tempos que alguns pretende fazer esquecer e pintar com cores de tempos gloriosos.
            Ah, espera, uma comparação com a defunta União Soviética rende mais comentários elogiosos, nestes tempos de elevado analfabetismo funcional.
            As melhoras.

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