Constatações e omissões


Sérgio de Almeida Correia,
1 – O Diário de Notícias faz hoje manchete com o afastamento pelo Presidente da República do director de informática da Presidência da República, ocorrido há quatro meses.

2 – Ficamos assim a saber que José Luís Seruya, um licenciado em teologia, da confiança do PSD, que trabalhara para o governo liderado por Durão Barroso, substituiu o anterior responsável pelos serviços que tinha sido nomeado por Jorge Sampaio.

3 – Também se refere que o Presidente da República procedeu à reestruturação do núcleo informático dos serviços da Presidência e criou uma Direcção de Serviços de Informática.

4 – Se isto é verdade, e tudo indica que sim posto que foi confirmado pela LUSA, e à semelhança do que já acontecera com as acções da SLN, inexplicavelmente omitidas num comunicado da Presidência da República quando rebentou o caso BPN/Dias Loureiro, o Presidente da República voltou a esconder aos portugueses factos essenciais para a compreensão da verdade e da sua posição, ficando nós sem saber se as suas dúvidas e perplexidades quanto às eventuais vulnerabilidades das comunicações e sistemas informáticos de Belém começaram antes da substituição de Paulo Castro Costa, ou se depois, e por que razão o especialista que a Presidência contratou não resolveu o problema detectado (se é que algum problema foi detectado e tudo não passou de uma visão persecutória da realidade).

5 – Quem numa empresa privada actuasse como actuou Fernando Lima, à revelia do chefe, invocando o seu nome e criando um escândalo público em matérias de tão grande melindre, causando alarme nas instituições e na opinião pública num período eleitoral, seria imediatamente alvo de um processo disciplinar visando o seu despedimento com justa causa.

6 – Na Presidência da República esse tipo de comportamento é alvo de protecção da exposição pública e das consequências do abuso e da invocação indevida do nome do titular do cargo.

7 – Tal como acontecera com o caso das acções da SLN, quando o Presidente veio falar na sua vida privada e na legitimidade dos ganhos que auferiu com a sua venda, quando não era isso que estava em causa nem o que os portugueses queriam saber, também agora veio, despropositadamente, abordar questões irrelevantes, omitindo o esclarecimento sobre os factos essenciais que importava saber: o que sabia o Presidente da República da actuação de Fernando Lima, que ordens deu, quando e a quem.

8 – O Presidente da República falou aos portugueses como quem cavaqueia num café com os amigos e não como um Chefe de Estado que se dirige à Nação, formulando perguntas ingénuas e de resposta óbvia, pouco consentâneas com a responsabilidade do cargo que ocupa e colocando-se num patamar onde é alvo fácil da crítica e do enxovalho.

9 – Estes factos revelam traços preocupantes na actuação e pensamento do Presidente da República que eram totalmente desconhecidos dos portugueses.

5 comentários em “Constatações e omissões”

  1. Embora concordando quase inteiramente com a análise que faz deste ‘caso’, permito-me porém discordar profundamente dos seus dois últimos pontos em jeito de conclusão. Só portugueses muito distraídos poderiam, agora, alegar desconhecer as qualidades comunicacionais de Cavaco. Para quem o venha seguindo atentamente, julgo que não será difícil de concluir que CS é um autêntico desastre a comunicar o que quer que seja. Aliás, em minha opinião, isso explica em grande parte os infindáveis e recorrentes silêncios que impõe a si mesmo, a propósito das mais disparatadas razões e argumentos. Basta lembrarmo-nos do célebre “tabu” quando era PM e de tudo o resto, para vermos a sua falta de jeito como comunicador. O cargo que ocupa, exigiria alguém com uma elasticidade, com uma abertura e com um jogo de cintura que Cavaco nunca teve e que alguma vez terá. Para mim, o seu desempenho neste ‘caso’ não revela algo de desconhecido ou de surpreendente na sua personalidade. Bem ao contrário, é apenas mais, muito mais, do mesmo.

  2. Ele não foi eleito com o meu voto, pela mesma razão que não votei em Sócrates: não gosto de pessoas que têm a mania daquilo que não são. Não gosto nem de arrogância nem de tabus.

  3. exactamente!

    8 – O Presidente da República falou aos portugueses como quem cavaqueia num café com os amigos e não como um Chefe de Estado que se dirige à Nação, formulando perguntas ingénuas e de resposta óbvia, pouco consentâneas com a responsabilidade do cargo que ocupa e colocando-se num patamar onde é alvo fácil da crítica e do enxovalho.
    9 – Estes factos revelam traços preocupantes na actuação e pensamento do Presidente da República que eram totalmente desconhecidos dos portugueses.

    nem mais. é o que tenho vindo a defender em conversa com amigos

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