Sou de uma espécie em vias de extinção: todos os dias compro um jornal. Pelo menos um jornal. Hoje comprei o Público, só pela entrevista de Ana Sá Lopes e Manuel Carvalho a Vasco Pulido Valente. E valeu a pena, claro. Se não tivesse mais nada, já justificava o que paguei pelo meu exemplar.
A ler
Pedro Correia,

Com muita pena já não pertenço a essa espécie: não os compro, se escritos em acordês. Não sou capaz. O que me deixa com o Público. Sucede que as opções editoriais do Público dele me afastam crescentemente (não integro as minorias tidas como correctas, nem me fracturo com as mesmas questões; problema meu, evidentemente). De forma que apenas mantenho teimosamente a assinatura “online”, por ser o Público – e enquanto o for – essa espécie de derradeiro bastião da imprensa diária escrita em decente ortografia.
Por isso e por algumas colunas de opinião (que não sei se subsistem por outras razões que não a de apresentar uma espécie de dissensão tolerada e útil), o conhecedor tratamento de algum tema que de que me sinta próximo (resta o Público, dir-se-ia, para denunciar por exemplo o criminoso destino, por cá, da via férrea), e a ocasional entrevista.
Como essa de hoje, que invoca. Lê-la é um imperativo de higiene. Valeu a assinatura deste mês.
Costa
Com todos os defeitos que possa ter, e seguramente tem, continua a ser o melhor diário português.
Restam poucos. Cada vez menos, não apenas em Lisboa. No Porto, que teve três diários em décadas recentes, resta um.
Eu vou comprando, nem sempre os mesmos. Mas todos os dias pelo menos um. É a minha maneira de remar contra a maré, embora consciente de que estou cada vez mais fora de moda.
Se está fora de moda está no bom caminho, como o poema de Régio nos diz.
Concordo plenamente. Quanto ao Público e quanto ao resto.
E restam poucos, de facto. Ler um jornal – um jornal, entenda-se, não alguns sucedâneos que por aí circulam (e os papéis da bola são um mundo diverso e pouco abonatório em termos de hábitos de leitura) – é de facto coisa, por cá, crescentemente exótica.
Para os portugueses, parece, a leitura ou é incómodo dispensável ou está muito bem quando limitada às bizarrias e superficialidades dos “feeds” (parece que lhes chamam assim) da internet. Analfabetos funcionais, dominamos exemplarmente o nosso jornal e livro, pelo qual pagamos o que for preciso: o “smartphone”. E as versões actuais do homem elefante e da mulher barbuda chegam-nos perfeitamente. Vivemos um circo oitocentista que “passa” no facebook. E gostamos.
Costa (neto de linotipista do DN)
Eu diria antes que é o menos mau diário português…
Dos sete jornais que se publicam diariamente em Portugal, três são desportivos (sendo que “desportivo” significa futebol e pouco mais). Penso que esta simples estatística explica muita coisa sobre o nosso país.
Eu também vou comprando o Público à Sexta-feira por causa do ípsilon, mas muitas vezes é dinheiro mal gasto.
E compro os jornais regionais para ver se não acabam…
Maria
A fotografia, da primeira página, de Vasco Pulido Valente é todo um manifesto
Extraordinária foto. É mais que justo mencionar o autor: Nuno Ferreira Santos.
Mário Soares a maior figura portuguesa !!???
Opinião dele.
Com a qual se não tem que concordar, mas que é apresentada num contexto de seriedade, de honestidade intelectual, de coerência, que merece respeito.
Costa
Certíssimo.
“Opinião dele.” e de muitos se bem que não de todos.
Era o que faltava ser a opinião de todos…
Boa entrevista. Concordo com três coisas e uma generalização e discordo de uma outra coisa:
1. Cavaco teve uma oportunidade e perdeu-a, deixando que o regime partidário se apoderasse do País que tem vivido grotesca e vergonhosamente das mesadas da UE — e tanto o PSD como o PS são responsáveis pelo crescimento do Estado durante todos os anos pós- CEE. Passos Coelho (em quem eu não votei, esclareço) teve a percepção certa mas não teve a fibra necessária e rodeou-se de uns piratas que vieram lá do mato e que são precisamente os piratas que têm estado a dar cabo disto tudo. O que era necessário era ter reforçado a sociedade civil e não o “familialismo português” do emprego para os amigos que foi o que aconteceu. A cultura do mérito, que é a única cultura aceitável numa sociedade democrática, pura e simplesmente não existe em Portugal a não ser em nichos muito específicos e mesmo assim em casos perfeitamente isolados que são quase casos de desespero;
2. As Ciências Sociais (sobretudo a Sociologia e a Antropologia e merdas desse género) são uma fraude completa e não servem para nada — serviram para inculcar na sociedade o discurso do politicamente correcto que se apoia em deturpações graves da História e já está a criar os piores anti-corpos nas pessoas e que provavelmente vai dar origem a regimes muito sectários em toda a Europa.
3. A UE é uma arquitectura de uma certa mentalidade que está a desaparecer
4. (a tal generalização) Há dezenas de teses facciosas escritos por gente que sabe pouco com pretensões de cientificidade — porque há milhares de pessoas com mestrados e doutoramentos que não valem um caracol. A coisa começa na escola pública e acaba em universidades pouco rigorosas onde os próprios professores são largamente idiotas e incompetentes. A objectividade é uma coisa muito dura: isola as pessoas e faz com que as pessoas percam muitos amigos. A maior parte das pessoas não tem treino nem estrutura psicológica para uma provação dessa envergadura. A maior parte copia tudo de cábulas e de papelinhos imprecisos. Ainda assim Raquel Varela não é a pior delas todas.
5. Soares não foi a maior figura nacional (no sentido positivo e construtor) desde 1800. Foi a única de jeito, mas caiu numa espécie de paternalismo que não é aceitável. Aliás a ideia recorrente de que o PM é o tipo que determina tudo ou que manda em tudo é absolutamente pavorosa. Quem tem de construir o País é a sociedade civil e não é cá nenhum ministro de porra nenhuma. A única coisa que um Governo e os seus algozes fazem é gerir o estupro e o saque que fazem às pessoas de bem (sacarem aos que são como eles pouco me importa, até é muito bem feito).
“Ciências Sociais (sobretudo a Sociologia e a Antropologia e merdas desse género) são uma fraude completa e não servem para nada”
Lê isto, pela tua saúde :
Comportamento
A biologia humana no nosso melhor e pior
de Robert M. Sapolsky
ok ok sociobiologia é engraçado mas um curso daquilo que eu referi é muito pouco “operacionalizável”
Belíssima entrevista. Discordo de várias coisas mas isso pouco importa … É um dos últimos que vale a pena ouvir (ler).
Mais ler. Infelizmente não tem o mesmo jeito de escrever quando a falar.
Ainda bem que há Vascos e Valentes para “acordar a malta”.
Saiba que também sou dos poucos que compram quase diariamente o Público, e que o faço quase de forma compulsiva, mas que às vezes, muitas vezes, me arrependo de fazer essa despesa. E que também gostei de ler a entrevista ao Vasco Pulido Valente – estava com receio de que ele já não estivesse capaz, pois parece-me que deixou de escrever com regularidade, mas estava enganado: o homem está com a cabeça muito boa, pelo menos para aí a uns 120%… Ainda bem – para ele e para nós.