Pensamento da semana


escafandro,

Consideremo-nos felizes ou infelizes, bonitos ou feios, inteligentes ou estúpidos, ou, como é mais habitual, tudo isto em momentos diferentes, a nossa vida parece quase sempre ter menos significado e ser mais incongruente do que a dos outros, em particular se não existir uma qualquer crença (na maioria das vezes religiosa) que simultaneamente a relativize e lhe dê sentido. Seja como for, o principal objectivo da vida de qualquer pessoa é torná-la real; conferir-lhe significado. Quase toda a gente o atinge apenas durante momentos dispersos – entre os quais o que precede a própria morte.

 

Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

18 comentários em “Pensamento da semana”

  1. “E, quando se instala a tristeza , é dela que sou também escravo. O meu maior desejo é retê-la. O meu maior prazer sentir que tudo o que valia residia no que perdi. Mas simultaneamente como me compraz gerar beleza do que é em mim desespero, desgosto e fraqueza. A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer “

  2. Não me parece, pelo que julgo conhecer das pessoas, que ter uma crença transcendental dê mais significado à vida ou mais tranquilidade.
    Pelo contrário, impõe uma série de ritos, obrigações e inquietações, que eu, por exemplo, não tenho.
    Estou nos setenta e, até agora, ainda não senti qualquer necessidade de me agarrar a uma crença.
    A convicção de que “regressarei à terra que me viu nascer”, e que me regenerará, dá-me uma serenidade satisfatória.
    O que acontecerá na “hora da minha morte” não sei.
    Logo se verá.
    João de Brito

  3. Se o significado da vida é sentir-lhe o propósito realizado no momento que precede a morte, não conheço qualquer estudo – porque agora há estudos para tudo mais um par de botas – que sustente essa tese.
    Que é tudo circunstancial durante a longa e efémera travessia excepto nascer e morrer, acredito que sim.

  4. As crenças, religiosas ou não, podem ajudar no que quer que seja, mas não irão dar sentido. Somos nós próprios/as que o temos que fazer. Acreditando ou não, em que haja algo além do que conhecemos como matéria, que esteja presente, em diversas formas no nosso quotidiano, interrogo-me se sendo algo positivo, deixe acontecer o lado negativo, com mais ou menos sofrimento, mesmo antes da “próprias morte”.

  5. E como sabe que o significado vem com a morte se, que se saiba, ninguém regressou do reino do Hades para desvendá-lo. Não julgo que o exercício comparativo do sentido nos sirva. O sentido, que talvez nem exista senão como própria necessidade da espécie, é pessoal e as comparações, ainda que comuns e tentadoras, só distraem e afundam o eu. Embora o outro seja um outro eu, é um eu outro. E isso muda tudo.
    Tudo isto é teoria. Na prática, a fuga às comparações é impossível. A humanidade que nos habita tem destas coisas.

    1. Ulisses, Orfeu e Eneias voltaram… só para lembrar os mais cantados. E contaram distintas visões de tal reino – Ulisses mais pragmático, Eneias mais romântico, e Orfeu… coitado do Orfeu, olhar para trás foi a sua perdição. Resta saber se pela desconfiança ou pelo saudosismo.

      1. Pois voltaram. Mas os heróis não contam para as minhas contas sobre o reino dos mortos que aliás pouco me interessa. Apenas um fim total. Ou nem sequer isso.

        1. Há por aí muito anti-herói que reclama memórias de outras vidas; outros, que preparam a vida no Além; por mim, e pelo sim pelo não, o melhor é aproveitar esta onde já navegamos tantas vezes o Estige

          1. Aprendi que é a viver esta que se prepara a outra, não há anexos, é tudo em um.

          2. Não parece, pelas suas palavras sobre “fim total”. Mas não interessa discutir as crenças individuais, interessa que cada um encontre em si ou nos outros aquilo que busca – se passar por preparar a vida no Além, que a preparação da próxima não vos alheie desta é o que posso desejar.

          3. Repito: é a viver esta que se prepara a outra; o que é diferente de viver esta a preparar a outra.
            Utilizei a expressão “fim total”, querendo dizer que não consigo excluir em absoluto essa hipótese de dissolução; facto que me parece compreensível, não estamos no domínio do experienciável; embora a admissão de tal dúvida seja um meio fracasso, pessoal e assumido, no capítulo da fé.
            A crença dos homens, salvo raras excepções, assemelha-se à sua eternidade, é frágil e efémera. E daí lhes advém a beleza; e o facto de não movermos montanhas:).

          4. É isso a fé, numa divindade ou nas capacidades humanas que, mesmo sabendo não moverem montanhas, nos permitem não desistir quando perante elas 🙂

  6. Vampirizo um post de Filipe Nunes Vicente para notar um comprimido que me parece poder ajudar a “malaise” que refere no seu postal- a generosidade.

    É terapêutica que aparece datada no novo Milénio, eventualmente desfraldada num ou outro prémio Nobel da Paz (como os deste ano), aqui e ali acenada de forma avulsa em derrames sobre auto-ajuda, as mais das vezes cultivada, como parecendo casmurrice, de forma recolhida, quase envergonhada nas vidas de quem assume cuidar e amar quem é próximo ou está por perto.

    “Gasset brinca ( El Espectador, 1925) com o sentido original do termo ( testemunha, tradução literal do martyros grego) quando uma ninfeta o interpela. Ela quer saber como Gasset vive sem apanhar sol:

    – Es qué yo no vivo, señora.

    – Pues qué hace usted?

    – Asisto a la vida de los demás”

    Quando lemos os clássicos – eu lembro-me de Tolstoi em “Guerra e Paz”, também uma demanda de esforço generoso, percebemos algum sentido, pré-laico(??) -o de ir aproveitando a jornada para não deixar de servir e satisfazer curiosidade pelas coisas do mundo, especialmente pelos outros, de não negligenciarmos a nossa função de cronista (não de moralista), na esperança que nas sínteses – escritos derramados, telas encharcadas, business plans de empresas “orientadas para o utilizador”, multimédias várias –
    se cumule ou sublime entendimento que, pelo menos, assista no seguir em frente, to “keep walking”, mesmo quando sombras se acastelam – “..because we are carrying the fire”- esta é tirada do “The Road” de Cormac McCarthy.

    O remate é ainda de FNV
    ” A descentralização do ego faz de facto muito bem. Como é que conseguem? Talvez porque, no fim de contas, os generosos recebam uma recompensa ambrosiana: dependem menos dos outros. Desperdiçam, portanto, menos e suportam melhor a solidão”

    P.S. Bibliografia abreviada:
    https://insanid.blogspot.com/2018/09/da-generosidade.html

    Jorg

  7. Quando a minha vida parece ter menos significado, ou mesmo nenhum, costumo ler (agora é mais ouVER) estes 2 poemas do Bukowski:
    The Laughing Heart
    e
    Roll the Dice.
    Umas vezes resulta, outras nem por isso…
    Maria

  8. Falso!, o principal objectivo da vida de qualquer pessoa NÃO É conferir-lhe significado.

    O principal objetivo da vida de qualquer ser vivo é o de continuar vivo, o objetivo que lhe vem imediatamente a seguir é o de consegir reproduzir-se.

    Daí que is instintos mais arreigados nos seres vivos (o homem incluído) sejam respetivamente o instinto de sobrevivência e o instinto de reprodução.

    O Homem procura a ataraxia (como é definida pelos estoicos) que, traduzida em termos científicos se designa por homeostasia.

    Não existe significado para a vida para além desta procura constante de um equilíbrio impossível de alcançar. Acham pouco?

  9. Talvez a vida seja “a busca do impossível através do inútil” ou uma óbvia promessa de frustração. Mas brindemos ao facto de haver alguma coisa em vez de coisa nenhuma.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *