A impaciência e o seu contrário têm-me (a)parecido por estes dias como que em alto relevo, mas imagino que sempre tenham estado por aí à vista. À minha vista estão agora mais, pode ser apenas isso. A capacidade de alguns trabalhadores/as de atendimento ao público aguentarem a pressa, ou o vagar, a conflitualidade ou a sem-noção de tantos clientes é um clamoroso exemplo diário de paciência. Outro bem rotineiro é a capacidade que a generalidade dos condutores mantêm de tolerar no trânsito os que se estão a borrifar para a alternância de passagem em hora de ponta – uma das mais bonitas invenções da civilidade urbana – e aí vão eles.
Mas e a falta de paciência? Para onde foi o dom de aceitarmos o que não controlamos, previmos ou desejámos? Que é esta agitação que há agora à flor de quase tudo? Dá-se por ela ou sente-se ao fim de poucos minutos numa fila, em qualquer ajuntamento inopinado de pessoas, ante mudanças de planos, frente a um sítio em obras, nos lugares com má receção de rede, na saída do estacionamento, em eventos de celebração ritual. Nos mais simples momentos de silêncio.
Que é que se passa connosco?
Este pensamento acompanhou o DELITO durante toda a semana

A frustração, a tristeza é tanta que apenas desejamos que o amanhã amanheça. Daí a pressa que o hoje acabe. Um hoje que será uma cópia do dia seguinte
Uma reeducação para o vagar possível. Eu pelos menos sinto precisão disto. Nada de muito significativo me acontece quando, por regra, ainda ou já estou com a cabeça noutro tempo/lugar.
1) Estamos a ficar mais velhos.
2) As expectativas estão a sair goradas – sei lá, a regência da geringonça é a um collage de pantominas de troca-tintas; o clube “mais grande” esta entoupeirado…
3) Não sera bem a falta de paciência (ou melhor, só a falta dela). Antes a falta de temperança – que eu aprendi na catequese, algo que hoje é visto como floral gótico. Ou para os mais laicos, a falta do contraponto ao “hubris” dos gregos antigos substituido por idolatrias a Rei Midas, isto sem terem lido a história até ao fim – onde se descobre que tal Monarca acabou com orelhas de burro.
Jorg
A temperança – bem visto. Os antigos – a Oriente e Ocidente – tinham-na por fundadora numa vida bem vivida (em comunidade). O ter saído do nosso léxico corrente é sintomático de algo, sim. Uma boa oportunidade para (pelo menos eu) voltar a Platão.
A temperança… Pois… Ouvi dizer que ainda se encontra em grande abundância lá para os lados do Oriente longínquo. E parece que ainda por lá também abundam coisas como a piedade filial, a qual, por cá, anda pelo grau de rarefacção do lince ibérico. Coisas que o Confucionismo tece…
Eu acho que é manias + peneiras (irritações da classe média alta) + excesso de população. Numa linha mais científica leiam a noção de “espaço proxémico” e as teses desenvolvidas por E. T. Hall.
Leiam vocês porque eu não tenho pachorra.
https://www.google.pt/amp/s/amp.theguard ian.com/science/the-h-word/2016/mar/23/s cience-ballard-high-rise-animal-research-p athological-overcrowding
Gracias pelo link. Edward Hall também é etólogo — e refere várias vezes a experiência de Calhoun
Não tinha pensado nestes termos, mas a conversar é que a gente (se) entende!
🙂 Não conheço, mas vou procurar.
Excelente reflexão, Cláudia. Tenho-me questionado também sobre isto. Sobre a forma como quase toda a gente parece fazer questão de ser (ou pelo menos parecer) desagradável em relação aos outros.
Como se as palavras amáveis e os mais simples gestos de civilidade e bonomia tivessem emigrado de vez para parte incerta.
Oh, obrigada 🙂
Parece-me que há muito que tresleia gentileza por fraqueza.
Como li ontem (já não sei onde, nem quem o escreveu):
‘Querer ser “cool” para quê? Antes ser “warm”. Quando o coração deixar de bater logo ficaremos todos irremediavelmente “cool”, de qualquer das maneiras.’
As palavras amáveis e os mais simples gestos de civilidade e bonomia, meu prezado Pedro Correia, têm a sua fonte na capacidade de empatia. Quando se aterrou essa fonte com toneladas de narcisismo e se entronizou a “emoção” e o “sentimento” como o alfa e o ómega das relações em sociedade, caminhamos para a dissolução da argamassa que mantém unida essa mesma sociedade.
Somos seres emocionais? Certamente. Mas somos também seres racionais e a empatia é sentimento e Razão a um mesmo tempo. É ela, no fundo, a ferramenta que nos permite ler os outros e nos faz dar um passo em frente no sentido de compreendê-los. Se a emoção/sentimento me faz sorrir e dar os bons dias ao meu vizinho pela manhã, quando estou bem disposto, já a mesma emoção/sentimento far-me-á ignorá-lo, quando acordo às avessas. A empatia assumida e praticada obriga-me (e eu dela sou um grato e voluntário cativo) a sorrir e a saudar pela manhã quem como eu é humano, se sente grato por estar vivo e com estoicismo carrega o fardo de ser humano e perecível.
A simpatia e o seu contrário são expressão da vida e da educação. Quando a vida corre bem, esta modela os nossos comportamentos e atitudes tornando-nos cívicos e amigos.Se já se vai notando alguma melhoria no atendimento dos funcionários e nas filas de trânsito, isso pode significar que algo mudou, positivamente, na nossa evolução enquanto indivíduos e seres sociais.
Em suma, o comportamento do cidadão é, em última análise, fruto da cidade. Temos o primado do objecto sobre o sujeito existindo, porém, uma relação dialéctica entre os dois. Somos feitos pelas circunstância que nós mesmos ajudamos a criar.