O adeus ao rigor


josegomesandre,

Certos namoros dão nisto. O Eduardo Pitta, durante anos um dos mais lúcidos comentadores da blogosfera nacional, entusiasmou-se de tal forma com o socratismo que abandonou o rigor em detrimento de wishful thinkings e imprecisões sistemáticas. A ver se nos entendemos:

1. O PSD não elegeu 77 deputados, mas sim 78. E pode chegar aos 80 ou 81, consoante resultados da emigração. Se atendermos ao facto de, em 2005, quatro lugares terem sido oferecidos ao PPM e MPT, no âmbito da coligação forjada por Santana Lopes, o PSD ganha objectivamente mais 9 ou 10 deputados. Foi um mau resultado, mas é um bocadinho diferente dos mais dois de que o Eduardo fala.

2. O PS "deixou o PSD a seis pontos de distância" no concelho de Lisboa. Pois foi. Mas não está esquecido que Santana Lopes concorre numa coligação com CDS, PPM e MPT, pois não? É que se contarmos com isso – e fazendo o paralelo para a corrida contra Costa, como o Eduardo faz – então ficamos com 34,8% (PS) versus 40,9%. Também são seis pontos de diferença, mas é para o lado contrário.

3. "61% dos portugueses que votaram apoia o casamento entre pessoas do mesmo sexo". Onde desencantou estes números? É que a soma de PS+PCP+BE nem chega perto. Ou está a depreender que os votos nulos e brancos são de apoio ao casamento homossexual? É uma leitura original, pelo menos.

 

Adenda: parece que este texto teve alguma utilidade: Eduardo Pitta já alterou os dados referentes ao número de deputados do PSD (sem contar com círculo de emigração) e do putativo número de portugueses que apoia o casamento homossexual. Continuo a achar precipitada a inferência, mas para início de conversa já não é mau.

5 comentários em “O adeus ao rigor”

  1. Mas quem é Pitta? O da camisaria da Rua Augusta? Além de cortar e coser, também escreve? Aprendeu nas Novas Oportunidades, foi?

    1. É bem verdade, Ana. Mas por qualquer razão o Eduardo já foi alterar os números. É que mesmo antes da “interpretação”, ali havia gato… Um abraço e obrigado pelo comentário!

  2. Boa 🙂 Nem mais.
    Além disso, aplicável a muitas personalidades de pseudo-referência.
    Mas sabe? O Eduardo Pitta, que deixei de ler porque ficou desinteressante e previsível nos seus arroubos de facciosismo cego, ao menos é frontal e tranparente.
    Escrutinável.
    Considero isso uma virtude de peso, se pensarmos em tantos que querem fazer passar as suas análises comprometidas por independentes e iluminadas, numa espécie de despotismo opinativo assaz desonesto. Lamentável.
    Para déspotas esclarecidos basta-nos o que foi apeado do trono para o chão batido, nas últimas cortes de 27 de Setembro. Deo gratias.

    1. É justamente por gostar de ler o Eduardo que tenho pena quando ele decide entrar por estes caminhos transviados. Quanto ao déspota esclarecido, receio bem que esteja por perto durante muitos mais anos (4 para mim já é demais). Abraço e obrigado pelo comentário!

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