Eleições: algumas notas


josegomesandre,

1. Os portugueses convivem bem com a mediocridade.

2. É espantoso que o PS consiga uma vitória clara num quadro actual de crise económica e social gravíssimo. Sócrates e a máquina socialista têm muito mérito neste resultado.

3. O reconhecimento desta vitória não deve fazer esquecer o óbvio: o PS foi penalizado pelos eleitores, perdeu 500 mil votos (o meu foi um deles), disse adeus à maioria absoluta e teve o seu pior resultado em Legislativas desde 1991.

4. O PSD sofre uma derrota colossal. Na situação actual, era obrigado a fazer muito mais. Os sociais-democratas vão ter de repensar a sua mensagem e a forma como a comunicam, por mais que lhes custe.

5. Desengane-se quem pensa que a derrota do PSD se deve exclusivamente a Manuela Ferreira Leite. Desde 2004 que o partido está encalhado nos 30%. Falamos de quatro eleições, três líderes diferentes, resultados semelhantes.

6. O CDS é o vencedor da noite. Passa a terceira força partidária, supera os 10%, obtém 21 deputados e torna-se o fiel da balança de uma governação estável. Ganhou com campanha focada e um líder carismático.

7. Embora melhore a votação de 2005, o Bloco de Esquerda tem noite amarga. Desce em função das europeias, fica muito abaixo do que sondagens previam, perde para o CDS e nem sequer consegue surgir como parceiro possível para o PS. Sem o monopólio das "causas fracturantes", sobra ao BE um programa económico populista e irresponsável, que uma esmagadora maioria dos eleitores repudia. 

8. A CDU mantém votação de 2005 e até conquista mais um deputado, mas torna-se a quinta força política – pela primeira vez na sua história. É praticamente irrelevante no quadro da governação e mantém-se encerrada num discurso anacrónico. Pergunto-me o que sucederá ao PCP quando perder o seu actual líder, cujo carisma ainda vai fixando muitos milhares de votos.

9. Os pequenos partidos voltam a falhar, especialmente o promissor MEP. Muitas expectativas para tão mau resultado (25 mil). O PCTP-MRPP do "eterno" Garcia Pereira obteve surpreendentes 52 mil votos e assim ganhou subvenção estatal. Nada mau para um partido que tem visibilidade nula na comunicação social.

6 comentários em “Eleições: algumas notas”

  1. Caro José,

    Algumas notas às tuas notas:

    2. Há mérito de Sócrates, pois há. E não esqueçamos que no mesmo dia os eleitores da Alemanha mergulhada em grave crise reconduziram também a chefe do Governo. Tendo no entanto a precaução, lá como cá, de não lhe conceder maioria absoluta. Sábios eleitores.

    3. A perda da maioria absoluta penaliza Sócrates, sem dúvida. Mas a vitória de um partido sem maioria absoluta é o cenário político mais frequente na Europa, começando pela vizinha Espanha.

    4-5. O PSD é penalizado pela ausência de propostas construtivas, pelo programa eleitoral sofrível, pela absoluta falta de carisma da líder, pela ‘asfixia democrática’ interna, por colossais erros na formação das listas, pelos desastrosos debates televisivos – e, enfim, por ter praticado uma oposição errática ao longo destes quatro anos e meio. A própria MFL, não esqueçamos, chegou a elogiar o Governo em sectores tão decisivos como Finanças, Saúde e Educação. Há quem não se lembre, mas eu tenho boa memória. Teve o que mereceu.

    6-7. CDS e BE são recompensados, em doses desiguais, por terem praticado uma oposição tenaz, consistente e competente. Pense-se o que se pensar de cada um deles.

    8. O PCP está enquistado. Não adianta nem atrasa, como aqui escrevi antes da eleição. A própria coligação CDU, com uns inexistentes Verdes, é anacrónica e inexplicável.

    9. Alguns dos pequenos partidos, como MEP, MMS e MPT, deviam ter-se coligado nestas legislativas para captar algum voto jovem urbano. Em devido tempo defendi aqui isso. Foi um erro terem dispersado os votos em candidaturas autónomas, totalmente inconsistentes.

    1. Obrigado pelos teus acrescentos, Pedro. Só três coisinhas: como imaginas, eu não sou tão severo em relação ao PSD, até porque gostei e muito do programa. Naturalmente houve muitas opções criticáveis (falei delas em tempo oportuno). E nos tempos que correm, a falta de um líder carismático é um problema grave. Sobre o BE, não quis desvalorizar o trabalho de oposição que faz, onde é competente, mas não creio que seja um vencedor esta noite. Apesar da subida e tudo isso. Nota final para os “pequenos”: não é compreensível que não criem uniões que os possam de facto tornar mais fortes. Um abraço!

      1. Discordo sobre o “não é compreensível que não criem uniões que os possam de facto tornar mais fortes” em relação aos mais pequenos.

        A razão de ser destes pequenos partidos e movimentos é precisamente exprimirem a diferença do seu ponto de vista em relação aos partidos clássicos. Juntarem-se poderiam ganhar mais votos, mas ao custo de abandonarem os específicos das suas mensagens.

        Um tema recorrente nesta eleição é que nenhum dos 5 grandes reflecte o que muita gente procura, desde os liberais de direita que procuram uma direita financeira sem tretas moralísticas até os liberais de esquerda que procuram uma esquerda social sem políticas económicas pseudo-soviéticas.

        O foco destes pequenos partidos, nesta fase mais naif, é mais publicarem a sua mensagem que ganhar poder. Aliás, podem até perder a pouca popularidade que têm se o foco for ganhar poder a qualquer custo. O que os distinguirá dos outros? Ganhar por ganhar meteu-nos nesta bela sopa homogénea de partidos, todos em plena decadência.

        Tomem em conta que o único partido destacado foi precisamente o único que se focou em si próprio e na sua mensagem, o CDS. Não os suporto ( sou de esquerda), mas há que respeitar a sua re-descoberta integridade.

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