As ruínas do interior


Pedro Correia,

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 Foto: Global Imagens

 

Faz hoje um ano. Vamos lembrar-nos para sempre desta data trágica: 17 de Junho de 2017. O mais mortífero conjunto de fogos florestais ocorridos em simultâneo em Portugal, a 11.ª mais devastadora tragédia do género de que há registo desde 1900 a nível mundial.

Houve 66 mortos oficialmente contabilizados nos incêndios que devastaram 53 mil hectares de território, abrangendo 11 concelhos*, durante uma semana –  47 dos quais apanhados pelas chamas, naquele dia fatídico, em plena Estrada Nacional 236. E 254 feridos, pelo menos sete deles em estado muito grave.

Cerca de meio milhar de casas (169 de primeira habitação) e quase 50 empresas foram destruídas, perdendo-se 372 empregos directos. Mais de um milhar de animais mortos – no caso dos mamíferos, sendo incalculável o número de aves e outras espécies dizimadas pelas chamas.

Quase 200 milhões de euros em prejuízos globais – floresta, agricultura, habitações, actividade industrial e turística, rede viária.

Um ano depois, muitas cinzas já estão cobertas por mantos verdes – neste ciclo incessante da natureza que sempre se renova. Mas o luto persiste, irrevogável, no calcinado Portugal do interior. O mais velho, o mais pobre, o mais frágil. O que sempre mais sofre.

 

* Pedrógão Grande, Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos, Góis, Penela, Pampilhosa da Serra, Sertã, Alvaiázere, Ansião, Arganil e Oleiros

47 comentários em “As ruínas do interior”

  1. Há muitos anos dei aulas em Pedrógão Grande e atravessava com frequência Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra. Ficou-me para sempre gravada a lembrança do pinhal verde e cerrado bem como a albufeira da Barragem do Cabril. Andei durante anos a pensar em revisitar aqueles sítios onde fui feliz. Hoje, não sei se a tristeza que senti há um ano sem lá estar não se adensaria ao ponto de me tornar inviável como visitante.

    1. Julgo que terá feito bem, caro Júlio Farinha. Aconteceu-me o mesmo este ano, em relação à Beira Alta – onde estive na Primavera de 2017, num longo e muito aprazível período de férias: Vouzela, Oliveira de Frades, São Pedro do Sul, Soure, Sátão, Castro Daire, Vila Nova de Frades, Sernancelhe.
      Pensei lá voltar este ano. Mas faltou-me – não a vontade mas a coragem. Prefiro, por enquanto, guardar aquelas excelentes memórias de um verde que parecia não ter fim.

  2. Ainda há alguns mistérios:

    https://blasfemias.net/2018/05/14/os-misterios-de-pedrogao-grande/

    Claro que os jornalismo marxista deixou de se preocupar com os incêndios, o ambiente e os crimes ambientais quando são os palestinianos a lançar vários milhares de balões planadores incendiários para pegar fogo a florestas.

    1. Na altura, (des)animada com o comentado, acho que não tive oportunidade de dizer que o bom-senso não devia permitir sentir bonita e poderosa a imagem da desolação. Mas felizmente a Arte nada quer com o bom-senso – este fica para a política. Ou devia…

      1. O mvf – que conheço muito bem, grande amigo – nunca se reclama como artista. Exige o reconhecimento como fotógrafo. E ainda para mais fotógrafo dali (originário de Tondela). Não procurou o “belo”. Foi para lá, calcorreou as aldeias, lugares e montes, que ama como sua terra, e retratou o resultado dos fogos e da incúria das gentes. Se bem o conheço cada uma das dezenas de fotos (as expostas) quer ser um murro. E como é um belíssimo fotógrafo conseguiu isso.

        1. Tirando o “former known as Prince”, nenhum Artista se arroga tal nome. Arteiros, sim, imensos…
          … mas não é o caso de MVF. Esse é, queira ou não, Artista – a Arte esmurra os sentidos tanto quanto os sublima. Quem se espanta ou encanta sem isso talvez perca metade do brilho.
          Isto, dito por quem não percebe nada de fotografia, vale o que vale…

        1. Porque não dirigir-se de peito aberto ao objeto da sua cólica cerebral?
          A cobardia assume muitas vezes esses contornos de mandar recados por mensageiros que na circunstância bem lhe podem fazer um manguito.

          1. Que Rao Arques sofra de cólicas cerebrais e pelas suas as assuma noutros é assunto para meditação do próprio porque a mim nada apoquenta.
            Agora que me chame cobarde por interpelar o Pedro Correia numa matéria que, circunstancialmente, lhe foi colocada a si, revela uma idiotia que lhe não conhecia, ainda para mais ancorada num egocentrismo que o leva a achar que, porque interpelado quem o interpelou, o assunto seria sobre si.
            Poderia ter tido a decência de perguntar se era, e saberia que não, e até talvez lhe explicasse o contexto do meu comentário; assim, limitou-se a expor a massa de que é feito.

          2. Oh, para sua tranquilidade, e apenas para isso, saiba que o entendi perfeitamente. Diria mesmo que finalmente o vi como é.

          3. Na falta de argumentos parte para o recurso primário da ofensa pessoal.
            Demasiado básico para não dizer rasteiro, o que sugere um simples pedido: Não se meta mais comigo para não se atolar sem retorno na esfera da imbecilidade.

    1. E eu não esqueço que neste dia um PM foi de férias, nao sem antes encomendar uma sondagem sobre os efeitos da desgraça na sua popularidade. E não é que, pouco tempo depois, ganhou eleições com grande aumento de votos! Deve ser outro dos casos em que somos unicos no mundo.

      1. Foram eleições autárquicas. Em que o PSD revelou uma confrangedora incompetência, como bem se viu nos candidatos que apresentou em Lisboa e no Porto.
        Estava escrito que teriam o pior resultado de sempre. E tiveram mesmo.

        1. Sao os votos no PS que estão en causa, portanto não mude de assunto. Por mim, nunca poderia ter a consciência política tranquila se votasse uma vez que fosse num grupo que tivesse como chefe o autor dos comportamentos referidos. Falta total de competência e de outras qualidades essenciais para exercer o lugar, o que veio a ser mais do que confirmado posteriormente. Se a maioria dos portugueses gosta, a única coisa que eu posso fazer é pagar os impostos

          1. Repito: foram eleições autárquicas. Ninguém votou em “chefe” algum. As pessoas votaram em presidentes de câmaras e presidentes de juntas.
            Só.

          2. Presidentes independentes são meia dúzia ou coisa parecida e português vota sempre no seu clube. Se não entendeu o que eu quis dizer, resta-me desejar-lhe bom domingo.

  3. A Natureza é bondosa e paciente. Tem dado tanto de si e recebido nada em troca. Só maus tratos e atentados. Até quando suportará a perfídia e a ingratidão não sabemos, porque até o mais pacífico acabou por expulsar os vendilhões do templo. Mas a Natureza tem sido pródiga e indulgente connosco, mostrando-nos que amanhã poderá ser sempre um dia melhor e cobrindo o negrume das feridas com o seu manto verde, inferindo que a esperança não morreu.
    Connosco é diferente, talvez por não sermos bondosos, pacientes, pródigos ou indulgentes. Não está na nossa natureza esquecer, a não ser por conveniência. Não está na nossa natureza perdoar. Relevar não é absolver. Não há absolvição possível para a culpa, seja ela qual for.
    Há um ano um pouco de todos nós pereceu num holocausto de chamas.
    É imperativo que os que já não têm voz não se calem nunca. É nosso dever relembrar e reavivar anamneses. Para que a terra não esqueça nunca e os homens também não.

    1. A nossa terra é terna mãe. Chora mas as lágrimas saem-lhe flores e com as memórias revestem-se de outra vida. Cumpre aos filhos da terra não deixar que à tragédia da perda se junte também a tragédia de nada termos aprendido.

  4. Por mais que me esforce por encontrar justificações razoáveis para a tragédia dos incêndios rurais e florestais, não consigo deixar de concluir:
    – Não há dúvida de que os regimes políticos, os sistemas judiciais, numa palavra, os estados não foram concebidos nem executados para proteger o povo…
    João de Brito

      1. Mentira!
        Nas democracias, como noutro qualquer regime até agora conhecido, os povos têm tido os governantes que, de de uma ou outra forma, por ação ou omissão, lhes são impostos.
        João de Brito

          1. Acredita mesmo nisso?!
            Então acredita numa mera formalidade.
            Uma quimera!
            Quem diria?!
            João de Brito

          2. Mais ou menos…
            Democracias há em que os eleitores escolhem entre nomes escolhidos pelos deuses.
            E os executivos são formados por gente escolhida por um deus que representa a maioria dos nomes votados pelos eleitores mas escolhidos pelos deuses.
            Confuso? Sim, é mesmo uma pescadinha de rabo na boca, e a urna está ali para disfarçar.

            Portugal e Espanha são dois exemplos, e dada a população da península talvez possamos falar em 99,9% dos cidadão a serem assim governados. Isto porque não sei como funciona em Andorra…

          3. Nem sempre, Pedro… Nem sempre 🙂

            Pedrogão passou de tragédia a um tema do qual e bonito falar de tempos a tempos, infelizmente 🙁

            Abraço,

  5. Obrigado pela verdade neste post.
    Também eu hoje escrevi, não só acerca de Pedrogão Grande, como das regiões afetadas pelos incêndios de outubro. Vivo numa delas.
    O que sentimos é que pouco ou nada tem sido feito. Noutro artigo, escrevo a respeito da disseminação dos eucaliptos, inclusive em zonas queimadas.

  6. O problema é que a nossa classe política não quer lembrar esse dia.
    Prefere festejar um 25 de Abril, do qual actualmente poucos se lembram.

    Portanto o que não interessa convém sempre esquecer.
    Ainda por cima com eleições próximas.

  7. Um ano depois confirma-se a condenação a que o interior está sentenciado desde há décadas. Serve essencialmente de arma de arremesso politico ao sabor do calendário eleitoral. Enquanto que no dia a dia é deixado á mercê de todo o tipo de interesses e negociatas onde a (pouca) população que resiste é apenas uma marioneta sem voz. Esta tragédia veio mostrar tudo isto mais uma vez, desde a correria de governantes e opositores sedentos de obter créditos junto da opinião publica, até ás famigeradas campanhas de solidariedade patrocinadas por empresas que no dia a dia, nada fazem em prol deste interior. Basta perguntar a quem la reside como foi o tratamento das empresas de comunicações para restabelecer serviços básicos para perceber o quanto diferente é a realidade do dia a dia face ao que se diz em frente ás camaras de televisão. E os milhões angariados e que alegadamente desapareceram quase de imediato? Alguém quis saber se realmente foram aplicados a ajudar quem ficou sem nada?

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