
O ano passado, numa das minhas incursões à livraria do bairro onde vivia, comprei três livros que andava a namorar há tempo, mas que esta ou aquela razão adiaram a leitura. Las Cuentas y los Cuentos de la Independencia, de Josep Borrell e Joan Llorach, foi o primeiro a ser devorado. Eram três as razões do meu interesse. Primeiro, o facto de ser um exame frio e objectivo, muito assente em dados quantitativos e em análise comparada, aos argumentos do independentismo catalão. Segundo, ser da autoria de dois catalães catalanistas. Por fim, o nome Josep Borrell, histórico socialista, antigo ministro das Obras Públicas no Governo de González, ex-presidente do Parlamento Europeu e uma das personalidades políticas de Espanha com maior prestígio fora de portas.
Os argumentos apresentados por Llorach e Borrell são demolidores para o independentismo, não por causa de artifícios retóricos ou de talento literário, mas sim por número a número, percentagem a percentagem, artigo a artigo desmontarem com rigor cirúrgico os argumentos de quem exige uma Catalunha soberana. Borrell submeteu o resultado a escrutínio público, em língua catalã e com contraditório, num frente-a-frente com Oriol Junqueras, líder do partido independentista Esquerra Republicana de Catalunya. O resumo deste debate televisivo é imperdível (legendas em castelhano).
Josep Borrell regressa agora ao Governo de Espanha pela mão de Pedro Sánchez para ocupar a pasta dos Negócios Estrangeiros. Esta nomeação garante a respeitabilidade do novo Executivo no plano internacional, mostra que o Governo cumprirá os compromissos assumidos pelo país em Bruxelas e que se empenhará no projecto Europeu (o Podemos que se desiluda se espera grandes inversões nesta matéria), e é também um sinal claro ao independentismo radical que se instalou na Catalunha. Tudo isto é mais relevante porque o actual Executivo será sempre uma solução a prazo. Sanchéz, que estava politicamente morto em Novembro de 2016, dá uma prova de vida apreciável com esta nomeação. Esperemos pelas cenas dos próximos capítulos.

E já me fez gastar dinheiro… lá fui ao BookDepository, neste caso saiu mais barato do que a Amazon, o que nem sempre acontece. E em castelhano, claro.
Abraço
Fernando Antolin
Vale a pena, Fernando. Abraço e boas leituras.
Caro Diogo Noivo,
Consegue dar-me mais detalhe sobre o “La transicion” ? É Jose Luis Ibanez Solas ? E que editora ?
É que, como vou com frequência a Espanha (Sevilha) e tenho grande amiga em Madrid…
Desde já muito obrigado.
Melhores cumprimentos,
xxx
PS: Conhecemo-nos na apresentação do livro do Delito… obrigado pelo autografo!
Sim, é José Luis Ibáñez Salas. A editora é a Silex Ediciones. O livro é uma análise ao muito que já se escreveu sobre a transição espanhola, centrado em perceber os mecanismos políticos que a sustentaram e os propósitos das opções tomadas naquele momento (a política de autonomias, os pactos de regime, a legalização dos partidos, a forma como se controlaram os “ultras” apostados em descarrilar o processo de democratização, etc). No fundo, o objectivo do autor é o de, a partir da História, centrar o debate público sobre a transição, muito afectado por um revisionismo ideológico movido por personalidades próximas do Podemos e de organizações semelhantes. Vale a pena. E obrigado nós pela sua presença no lançamento da antologia do DELITO. Abraço e boas leituras.
Mutchas gracias!
Forte abraço,
por número a número, percentagem a percentagem, artigo a artigo desmontarem com rigor cirúrgico os argumentos de quem exige uma Catalunha soberana
Podia explicar melhor? Que números e que percentagens desmontam que argumentos? Pode dar um exemplo de um argumento a favor da independência catalã que é desmontado por um número (ou percentagem)?
Foi a pensar em si que, no texto, coloco uma hiperligação para um debate onde esses dados são referidos.
Tem razão. Felizmente o vídeo é curtinho, já o vi.
Em rigor não são desmontados com números argumentos a favor da independência. São desmontadas falsidades apresentadas por independentistas, o que é ligeiramente diferente. O argumento final a favor da independência é um argumento de preferência, não é um número. Acho eu.
Josep Borrel
Tem dois ll no fim. É importante, porque se lê “Borrelh”. Os castelhanos lêem “Borrel” e afirmam não conseguir pronunciar o “lh” final – embora tenham o som “lh” na sua própria língua! Há muitas palavras catalãs com o som “lh” no fim, e os castelhanos pronunciam-nas todas como se fosse “l”.
E sai mais uma visita à Amazon … obrigada pela partilha!
Andei por lá ontem. E, como sempre, o cartão de débito acabou em estado de prognóstico reservado.
“Primeiro, o facto de ser um exame frio e objectivo, muito assente em dados quantitativos e em análise comparada, aos argumentos do independentismo catalão”
Quem analisa friamente, racionalmente, digamos, o problema das Nacionalidades, demonstra ignorância quanto ao que move estes movimentos independentistas ou nacionalistas. Há Ideias que germinam no coração e não na cabeça.
👍