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Maria da Fonte, quadro de Júlio Pomar (1957)
«Leva muito tempo tornarmo-nos jovens.»
Picasso
Sempre me questionei sobre o motivo da longevidade dos pintores, muito superior à de escritores e músicos, e apenas equiparável à dos arquitectos. A chave dessa incógnita pode estar na frase de Picasso que cito em epígrafe: o pintor tem uma relação única não só com o espaço mas também com o tempo.
Aí estão, para demonstrar esta tese, Georgia O’Keeffe (que morreu aos 98 anos), Marc Chagall (97 anos), Maria Keil (97 anos), Oskar Kokoschka (94 anos), Abel Manta (93 anos), Júlio Resende (93 anos), Nadir Afonso (93 anos), Alfredo Volpi (92 anos), Willem de Kooning (92 anos), Ticiano (91 anos), Pablo Picasso (91 anos), Andrew Wyeth (91 anos), Joan Miró (90 anos), Victor Vasarely (90 anos), Giorgio de Chirico (90 anos), Querubim Lapa (90 anos), Victor Pasmore (89 anos), Robert Indiana (89 anos), Miguel Ângelo (88 anos), Emil Nolde (88 anos), Dórdio Gomes (88 anos), Lucian Freud (88 anos), Fernando Lanhas (88 anos), Antoni Tàpies (88 anos), Árpád Szenes (87 anos), Henrique Medina (87 anos), Emilio Vedova (87 anos), Frans Hals (86 anos), Jean-Auguste Ingres (86 anos), Claude Monet (86 anos), Carybé (86 anos), Carlos Calvet (86 anos), Max Ernst (85 anos), Eduardo Viana (85 anos), Henri Matisse (84 anos), Edward Hopper (84 anos), Norman Rockwell (84 anos), Sarah Afonso (84 anos), Salvador Dalí (84 anos), Thomaz de Mello (84 anos), Edgar Degas (83 anos), Jean Dubuffet (83 anos), Jean Hélion (83 anos), Maria Helena Vieira da Silva (83 anos), Francesco Albani (82 anos), Francisco de Goya (82 anos), Carlos Botelho (82 anos), Francis Bacon (82 anos), George Stubbs (81 anos), Benjamin West (81 anos), Veloso Salgado (81 anos), Georges Braque (81 anos), Marcel Duchamp (81 anos), Júlio Reis Pereira (81 anos), Rolando Sá Nogueira (81 anos), Donatello (80 anos), Francesco Guardi (80 anos), Jean-Baptiste Chardin (80 anos), Edvard Munch (80 anos), Roman Opalka (80 anos), Pierre Bonnard (79 anos), Jean-Baptiste Corot (78 anos), Pierre-Auguste Renoir (78 anos), Wassily Kadinsky (78 anos), José Malhoa (78 anos), Jacques-Louis David (77 anos) e Almada Negreiros (77 anos).
Ou, entre os vivos, Cruzeiro Seixas (97 anos), Albert Bertelsen (96 anos), Leon Kossoff (91 anos), Manuel Cargaleiro (91 anos), João Abel Manta (89 anos), Arnulf Rainer (88 anos), Jasper Johns (88 anos), Nikias Skapinakis (87 anos) e Frank Auerbach (87 anos).
Lembrei-me disto há dois dias, ao saber que o grande Júlio Pomar se despediu de nós, com 92 anos, para cruzar a noite rumo à eternidade. Também ele demorou a tornar-se jovem.
Ei-lo imune enfim à erosão do tempo. Com a idade exacta da sua arte.

Júlio Pomar, um artista inigualável e pessoa que gostava de ter conhecido.
Desconhecia que os pintores vivessem mais que a outra gente. Pode ter a ver com o exercício da criatividade e o consequente desprendimento das questiúnculas do quotidiano, talvez seja essa a forma de se relacionarem diferentemente com espaço e tempo:).
São casos em número suficiente para estabelecer uma tese geral. Provavelmente acontecem pelo motivo que indica: «pode ter a ver com o exercício da criatividade e o consequente desprendimento das questiúnculas do quotidiano». Que os tornam diferentes dos demais, na relação com o tempo e o espaço.
Muitos mantem-se vivos porque não têm onde cair mortos….a maldição da fama póstuma
Fama póstuma tiveram os que morreram cedo. O Van Gogh, o Modigliani, o nosso Amadeo…
Homens que profetizaram antes do tempo. A genialidade é destruir o velho pelo Novo. É ver o ainda não visto. Passam por loucos os visionários.
Ver o não visto, sim. E ensinar a ver quando a esmagadora a maioria das pessoas se limita a olhar.
Ou ver o visto, por outros, com outros olhos.
Ia reclamar pelos jovens e pelos de meio-ciclo… 🙂
Reinventando-se viveram muito, e ainda assim viveram menos do que a sua criatividade pedia.
Jovens, morreram prenhes de febres e contradições. E outras maleitas próprias de então, esses que indica. Outros, como Klée, Gaugin ou Manet, ficaram-se entre as febres da juventude e o bulício da provecta idade.
Azar o deles. E nosso.
Hmmm… esses são as exceções à regra de que os pintores morrem tarde.
Muitos mantem-se vivos porque não têm onde cair mortos..
Ahahah — brilhante como sempre, Vlad.
Belo obituário para Pomar também, caro Pedro. Um abraço.
Vlad ist tott.
A frase é de Luiz Pacheco
Se permite mais dois do quintal: o Reis Pereira também Saul Dias e o Resende.
Obrigado. O Júlio Resende já cá estava. Mas o irmão de Régio ainda não. Passou a ficar.
Se os mais idosos derem licença a Lima de Freitas,merece.Aquele percurso esotérico ter-lhe-á tirado dez anos de vida.
Pedro, por falar na eternidade da saudade deveria, com pressa, lembrar-se de Eduardo Lourenço antes que o tempo o leve.
http://media.rtp.pt/extra/estreias/16802/
Quando nos chegar esse depois quem nos sobra?
Tem toda a razão.
Penitencio-me por essa omissão, que tentarei colmatar.
O Pedro Correia demonstre-me lá por favor a seguinte hipótese: os (ex-)jogadores de futebol morrem novos.
Se fôr preciso, selecione adequadamente os jogadores para demonstrar a hipótese.
Espere sentado. Numa poltrona bem confortável.
A demonstração fica por conta de quem, perante a hipótese, a quer validar.
Para tanto é necessário haver conhecimentos básicos e alguma ginástica mental. Condimentos bem mais raros do que muitos imaginam.
Pedro, sem ginástica mental não haverá imaginação. Como raio pode imaginar o sedentário, como conseguirá o imóvel sonhar a não-existência?
As bases poderão existir, mas as articulações… enfim, a imaginação também pode sofrer de artrose. E eu prefiro acreditar nisto 🙂
Pode crer que sim, os meus conhecimentos básicos em matéria de futebol são rudimentares. E não me penitencio por isso.
Em tempos fiz um gráfico com idade e colocação no tempo de um conjunto de pintores antigos que fortalece a sua tese, com algumas excepções a actividade de pintar faz bem à saúde. O post com o gráfico é este (https://imagenscomtexto.blogspot.pt/201 2/09/o-pecado-original.html) e o ficheiro excel está disponível aqui: (https://sites.google.com/site/jjamarant e/Home/diversos) com o nome “Pintores_v2a.xls”.
Muito interessante, esse seu gráfico, JJ.
Uma pequena nota de rodapé: Caravaggio (talvez um dos 3 pintores mais importantes de sempre?) além de pintor era bandido e faquista e morreu cedo por causa da 2ª actividade, coisa que por si só não vindica a tese do Pedro mas também não a refuta e aliás repete eternamente a sua condição predilecta: estar do lado de fora das leis.
Antes faquista que frasquista, porque bandidos bêbedos
V., desculpe,o telemóvel caiu-me, o comentário foi enviado estando a meio, e com isto tudo esqueci-me do que dizer.
Qualquer coisa na linha de que era faquista, bon vivant e pintor às vezes, de acordo com o génio e a penúria.
Talvez, como diz o Pedro e muito bem, ensinam a ver e não apenas a olhar. Vêm numa dimensão própria que os faz felizes e através dela exorcizam os seus demónios, como fez Picasso em Guernica, mesmo contra vontade, sabendo que era uma tomada de posição.
Reproduzem as visões da beleza que lhes vai na alma, coseguem ver para além do sentido da visão e explicar o mundo em tons , traços e perspectivas que dão à luz uma luz difrente da original luz da criação. Vivem rodeados dessa luz própria, que os preserva como um casulo de genialidade.
Takvez por itudo isto e muito mais, a longevidade dos contadores de histórias de luz seja longa e eterna a passagem.
A fama é muitas vezes um salvo conducto para que a canalhice se confunda na genialidade. Falo em Picasso. Dali. Van Gogh. Caravaggio. Degas. Miguel Ângelo.
Van Gogh então foi um canalha tÃo famoso, que só lhe reconheceram o talento depois de morto. Seguramente genialidade confundida.
E ainda bem! O artista vive num eterno paradoxo. Por um lado necessita de vender. Por outro lado abomina a burguesia e os críticos ,ao seu serviço, que lhe compram os quadros,e definem os critérios da boa arte. E surge a Arte Experimental.
Os pintores sempre detestaram as regras sensaboronas do mercado.
Note bem. Por vezes a canalhice é sinal de boa saúde.
O artista abomina a burguesia? São assim tão iguais os artistas?
Será que a arte precisa de se unir ao ódio da aristocracia pela burguesia para florir?
Pedro, eis mais dois nomes que talvez possam ser adicionados à lista:
http://sound–vision.blogspot.pt/2018/05/r obert-indiana-1928-2018.html
http://sound–vision.blogspot.pt/2018/05/b ill-gold-1921-2018.html
Obrigado pelas sugestões, Octávio. São bem-vindas. Desde logo por reforçarem a minha tese.
Boa questão, Pedro.
Talvez por conseguirem trabalhar até ao fim…
É bem capaz de ser também por isso, Luís.
boa noite, é caso para uma tese.
abraço
angelo vaz
pintor
Vou pensar nisso, caro Ângelo Vaz.
Gostei da sua visita.